América Austral – Trekking em Torres del Paine (Chile)

Como descrever um dos passeios mais impressionantes que fiz até o momento…

Estou iniciando uma nova seção no blog que faz parte da viagem Pedalando na América Austral, esse é um post especial sobre os dias em que acampei dentro do Parque Nacional Torres del Paine no Chile e realizei o trekking do circuito W, esse post foge da ordem cronológica dos relatos do dia-a-dia da viagem que estão “um pouco” atrasados.

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Caminho para Mirante Base das Torres

Deixando as desculpas de lado e indo ao que interessa, quem faz uma viagem longa sabe que podemos ter algumas alterações de trajeto por vários motivos, clima, bicicleta quebrada, um acidente, falta de dinheiro, qualquer coisa pode acontecer e te forçar a mudar os planos, mas quando planejei essa viagem coloquei o Parque Nacional Torres del Paine no roteiro como um dos pontos mais importantes da viagem e devido a expectativa que tinha em conhecer o parque e não aceitaria mudar os planos.

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O parque está situado na Região de Magalhães no sul da patagônia chilena, possui entre suas atrações dois grandes roteiros de trekking o maior chamado Circuito O que faz toda a volta do complexo de montanhas do parque e outro roteiro menor chamado Circuito W que contorna a parte sul das montanhas e entra nos vales até os mirantes, em minha visita ao parque realizei o circuito W e cheguei ao parque pedalando pela entrada de Laguna Amarga, onde consegui deixar a bicicleta, Oscar que me acompanha nessa viagem já estava na portaria esperando, após separar as roupas, equipamento de camping e comida pegamos ônibus que leva até o Refúgio Las Torres, onde acampamos para no dia seguinte começar nosso trekking, nossa estratégia era deixar toda a carga nos campings que ficam na entrada dos roteiros e subir levando apenas um lanche.

Mirante Base das Torres
Mirante Base das Torres

No dia 7 de fevereiro, saímos para caminhar até o Mirante Base das Torres, o céu estava encoberto de nuvens o que nos deixou com receio de pegar uma chuva no caminho, saímos do refúgio e passamos em frente ao hotel e logo a estrada de terra deu lugar a uma trilha atravessamos uma ponte e então apareceu a bifurcação do caminho a esquerda o Camping Los Cuernos e a direita o Mirador Base das Torres, caminho que seguimos, não demorou muito e apareceu a primeira subida então entramos no vale, o caminho segue pela encosta da montanha e no fundo do vale é possível ver o rio que desce a montanha, seguimos até o Acampamento Chileno, onde o caminho desce para o fundo do vale e o camping fica a beira do rio, fizemos uma pausa rápida para pegar água, muitas pessoas levam suas coisas ao camping chileno para fazer a caminhada até as torres e na volta dormir por lá, não era nosso caso, seguimos o caminho beirando o rio e logo o caminho entra em um bosque que hora ou outra se abre em grandes clareiras, chegamos a última subida para o mirante, uma subida íngreme, com muitas pedras soltas ou formando uma escadaria natural e tortuosa, pegamos um pequeno congestionamento até chegar no mirante, chegando lá a visão das torres, mesmo com o céu nublado, foi incrível, algo que eu só via em fotos toda vez que pesquisava algo sobre o parque e apesar de ter me planejando para realizar a viagem e passar nesse lugar, não acreditava que esse dia chegaria, sem falar nada e sem conversar com ninguém, fiquei sentado em uma pedra apenas olhando a paisagem que estava na minha frente, após esse tempo de contemplação, eu e o Oscar começamos o caminho de volta para o Camping Las Torres, nossa impressão é que a volta foi muito mais rápida que a ida, talvez por parar menos para tirar fotos ou para tentar fugira da chuva, o que não deu muito certo, pois em um certo ponto a chuva caiu e chegamos no camping molhados, chegamos muito cansados e não cozinhamos nada para jantar, apenas esquentamos água para fazer um chá e fomos dormir.

Caminho para Camping Los Cuernos
Caminho para Camping Los Cuernos

Na manhã seguinte, preparamos o café da manhã e conversamos com os nossos vizinhos de camping, fizemos amizade com uma mochileira italiana chamada Eliana que mora em Londres, e isso nos fez pensar a princípio que ela era inglesa, arrumamos as coisas nos despedimos e seguimos para o camping Los Cuernos, o caminho até o próximo camping não era muito difícil, mas meu “equipamento de trekking” não ajuda muito, o que torna a caminhada algo muito difícil e penoso, estou me referindo a minha mochila, que não é uma mochila de trekking, é apenas uma mochila estanque e sem estrutura e isso faz com que todo o peso caia sobre os ombros e não demora muito para começar a incomodar. Nesse dia o céu estava limpo e o sol apareceu, a caminho contorna a base da montanha e beira o Lago Nordenskjo. Chegando no Camping Los Cuernos, fomos até a cozinha do refúgio, um local onde se há mesas e somente nesse local se pode acender o fogareiro para cozinhar. Fizemos um lanche rápido e ficamos pensando se iriamos até o próximo camping ou ficaríamos ali, após avaliar o cansaço resolvemos ficar por ali mesmo, fui procurar um local para montar nossas barracas, conversei com três chilenos que estava montando sua barraca em um lugar alto e me indicaram um local um pouco mais abaixo, o lugar tinha muitas pedras no chão, mas era o único lugar livre que caberiam as duas barracas, não consegui colocar as estacas da barraca no chão cheio de pedras, então apenas usei as cordinhas da barraca apara fixa-la com algumas pedras grandes que achei ali, encontramos o Bernardo e a Isabela, mochileiros do projeto Instinto Viajante que conhecemos em Rio Grande na Argentina e reencontramos em vários lugares, também reencontramos a Eliana que conhecemos no camping Las Torres.

Los Cuernos
Los Cuernos

O sol se pós e o vento começou a soprar eu estava escovando os dentes quando escutei um forte estrondo e alguns gritos de desespero, logo percebi que o vento ficou muito forte o que causou toda aquela confusão, lembrei que minha barraca não estava muito bem fixada, sai correndo o banheiro e constatei que ela estava no chão com uma das varetas dobradas e só não saiu voando por causa das coisas que estavam dentro. Em meio ao alvoroço tentei remonta-la com a ajuda o Oscar, mas a cada rajada de vento fui percebendo que seria impossível dormir ali, e junto com o vento veio a chuva, o Oscar foi procurar outro local enquanto eu tentava segurar o bolo de coisas que a minha barraca havia se transformado, nisso passaram por mim os três chilenos que me indicaram o local, o vento quebrou as varetas da barraca deles e nesse momento eles estavam indo ver as condições do banheiro para ver se era possível dormir ali, Oscar retornou de sua busca, o único locar que encontrou era igualmente ruim, pensamos um pouco e decidimos seguir os chilenos, levamos toadas nossas coisas para o banheiro, o chão estava um pouco sujo de terra das botas das pessoas que entram no banheiro, nada além disso e também estava seco, começamos a organizar nossas coisas, dobrei minha barraca, e guardei tudo o que eu não precisava usar ali na mochila, o Oscar fez o mesmo, os chilenos usaram o que sobrou da lona de sua barraca para forrar o chão e também usamos uma pequena lona que o Oscar carregava, coloquei apenas o isolante térmico e o saco de dormir sobre a lona e passamos a noite ali, logo ao amanhecer, lá pelas 6h da manhã, começou o movimento no camping e as primeiras pessoas vieram usar o banheiro, todos nos levantamos e guardamos nossas coisas o mais rápido possível, seguimos para a cozinha onde tomamos o café da manhã.

No dia 9 de fevereiro, o objetivo era deixar as coisas no Camping Italiano, seguir leve até o Mirador Britanico e na volta pegar as coisas e seguir até o Camping Paine Grande, apesar de estar com tudo pronto desde a hora que saímos do banheiro, demoramos para sair pois o Oscar queria conversar com a Eliana, para informar nosso roteiro e ver se ela nos acompanharia, após consegui falar com ela, seguimos nosso caminho, na saída do camping reencontramos Bernardo e Isabela, eles também tiveram problema com a barraca naquela noite e tinha parte de suas coisas molhadas. Apesar de toda a chuva e vento da noite anterior o céu estava sem nuvens e o sol forte, seguimos pela encosta até o Camping Francês que fica no meio do caminho entre Los Cuernos e

Mirante Britânico
Mirante Britânico

o Italiano, após o camping Francês o caminho faz uma curva para a direita e começa a entra no vale em meio as montanhas, e após entrar em um bosque chegamos ao Camping Italiano, este camping é gratuito e mantido pela administração do parque, não há chuveiro, apenas um local onde se pode cozinhar e a alguns metros de distância do camping um banheiro, não há eletricidade e tão pouco água encanada, aliás a água que utilizamos para cozinhar ali é do rio que desce pelo vale, a água é de degelo e não há problema de contaminação, já estava no horário do almoço paramos para comer, arrumamos nossas coisas para ir leve até o mirante, preparei chá e coloquei em minha garrafa térmica, deixamos nossas mochilas na frente da guarita do guarda-parque e saímos, o caminho segue como uma subida constante até o mirador Francês, devido ao vento que soprava forte ali, ficamos pensado se seguiríamos até o britânico ou não, o Oscar me disse que eu deveria decidir seguir ou não, aliás eu havia planejado visitar aquele local em minha viagem, isso foi suficiente para decidir que devíamos seguir.

Eu e Oscar no Mirante Britânico
Eu e Oscar no Mirante Britânico

O caminho até o mirador britânico segue beirando o rio, e em vários momentos o bosque de arvores dá espaço a imensas clareiras com piso de pedras e outra hora a bosques de árvores mortas, no final para chegar ao mirador há uma pequena “escalada”, pois o mirante nada mais é que uma imensa rocha localizada no centro do vale e para subir o caminho segue por um monte de pedras formando uma tortuosa escadaria natural e íngreme. No topo do mirante é possível ver todo o vale rodeado pelo complexo de montanhas do parque, durante todo o dia desde que entramos nesse vale, escutamos estrondoso ruídos como se fosse um trovão anunciando uma chuva, mas na verdade são partes do gelo acumulado no alto das montanhas caindo devido ao degelo, são pequenas avalanches. De volta ao Camping Italiano, constatamos que devido ao cansaço nosso ambicioso plano de seguir para o Camping Paine Grande seria abortado, perguntamos ao guarda-parque se poderíamos ficar ali, mesmo sem reserva, devido à grande procura é necessário realizar uma reserva para os campings gratuitos do parque, o mesmo nos disse para esperar um pouco devido as pessoas que fizeram reserva e ainda não haviam chego ao camping, não demorou muito o guarda liberou nossa permanência no camping, tratamos de montar acampamento, cozinhamos e dormimos.

Chegando no Camping Paine Grande
Chegando no Camping Paine Grande

No dia seguinte bem cedo, desmontamos tudo, tomamos café da manhã e seguimos para o ultimo camping que planejamos em nosso roteiro, Paine Grande, mais uma vez o caminho não era difícil, mas a mochila inadequada me fez sofrer durante o caminho, após alguns quilômetros, mais especificamente após sair do vale, encontramos Eliana parada em um pequeno riacho abastecendo sua garrafa e decidimos seguir os três juntos até o camping, ao chegar no camping vimos porque é um dos principais campings do parque, é o que tem a maior estrutura, também é para muitas pessoas o ponto de entrada e saída do parque, pois fica a beira do Lago Pehoé e tem um barco que faz a ligação com Pudeto que é ponto de parada dos ônibus que fazem a ligação com Puerto Natales. Decidimos comer algo e Eliana iria seguir até o Camping Grey, antes dela seguir seu caminho tiramos uma série de fotos tentando pular os três juntos com o monte Los Cuernos ao fundo, não deu muito certo mas ficou engraçado…rs… após a partida da Eliana, eu e Oscar fomos procurar um lugar para montar nossas barracas, um pouco traumatizados pelo que aconteceu duas noites antes, tentamos encontrar um lugar abrigado do vento, algo um pouco impossível ali, então resolvemos ver onde havia um solo um pouco melhor, eu coloquei todas as estacas da minha barraca e utilizei o jogo extra de cordas que montei antes de sair do Brasil, a noite ventou muito o que fez muito barulho dentro da barraca, mas ela nem se moveu.

Oscar, Eliana e Eu no Camping Paine Grande
Oscar, Eliana e Eu no Camping Paine Grande

No dia seguinte, após o café da manhã, nosso último trekking no parque tinha como destino o mirador do Glaciar Grey, começamos a caminhar tarde e logo no inicio encontramos a Eliana que retornava do Camping Grey e iria segui viagem no mesmo dia, seguimos o caminho frio e úmido devido a proximidade do Lago Grey, chegamos no camping e fomos direto a cozinha, menor que nos outros campings, lá tomamos o chá que preparamos antes de iniciar a caminhada e comemos um pouco de bolacha, depois caminhamos mais um ou dois quilômetros até chegar no mirador do Glaciar Grey, ali senti que a visita ao parque tinha terminado, um objetivo cumprido em minha viagem, agradeci ao Oscar por ter feito essa caminhada comigo e iniciamos o caminho de volta ao Camping Paine Grande.

Glaciar Grey
Glaciar Grey

De volta ao camping, fomos cozinhar nossa última janta no parque, resolvemos cozinhar uma sopa aumentada com macarrão, feijão e uma salada de verduras em conserva, levamos apenas o meu fogareiro que funciona com gasolina para o parque e o combustível aguentou muito bem durante os dias, mas nessa última refeição o combustível já havia chegado ao limite mínimo e não parava aceso, procuramos que tinha fogareiro similar para pedir um pouco de gasolina, só encontramos dois e nos negaram combustível, sem sucesso fui até o mini mercado do camping ver se tinha algo, verificamos se alguma lata de gás abandonada na cozinha ainda tinha o suficiente para cozinhar, assim pediríamos o fogareiro a gás de alguém emprestado, mas todas estavam vazias, após alguns minutos encontramos um frasco com um liquido cor de rosa e o rotulo dizia ser solvente a base de álcool, procuramos o dono e não encontramos, então resolvemos testar uma pequena quantidade em uma lata para ver se o liquido era mesmo álcool, funcionou, carregamos a garrafa do fogareiro e com isso cozinhamos nossa janta e também fizemos o café da manhã no dia seguinte.

Para sair do parque resolvemos que era mais prático pegar o barco até Pudeto e depois pedir carona até Laguna Amarga, isso porque chegando em laguna amarga eu ainda teria que arrumar todas a minhas coisas na bicicleta e seguir pedalando até Cerro Castillo, o Oscar estava sem o triciclo e poderia pedir carona ou pegar um ônibus até o vilarejo onde nos encontraríamos, essa foi minha visita ao Torres del Paine, um parque lindo e com paisagens de tirar o folego, é um ponto obrigatório para quem visitar sul do Chile.

No próximo post volto a linha cronológica da viagem, por hora é só.

Boa caminhada e até a próxima.

Roteiro Realizado

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