América Austral – Gualeguaychu a Cañuelas (Argentina)

Entrei na Argentina….

Conforme prometido no post que fiz na página do blog no Facebook, encerrei a viagem e estou em casa mas vou dar continuidade aos post da viagem, retomando a linha cronológica dessa viagem, eu cheguei na Argentina após pegar uma carona em um caminhão para atravessar a ponte sobre o Rio Uruguai, ainda tinha cerca de 30 km pela frente e logo percebi que aquela rodovia não seria fácil por ser uma rota de caminhões entre Argentina e Uruguai, pouco antes de chegar a entrada de Gualeguaychu há uma pequena vila chamada General Belgrano e que também dá acesso à cidade, resolvi passar por dentro da vila para sair do transito da rodovia, a essa hora eu estava morto de fome, não carregava nada pronto para comer, tudo o que tinha precisava cozinhar, nesse momento um garoto estava caminhando com uma cesta a beira da estrada começou a acenar para mim, diminui a velocidade, a cesta estava cheia de pães, ele me entregou um e disse “regalo”… presente… meu Deus!!! A fome era tanta que comi quase metade do pão ali mesmo.

Chegada em Gualeguaychu
Chegada em Gualeguaychu

Passei pelo centro de Ghaleguaychu e fui procurar o coushsurfing que eu tinha contatado, o local era um hostel e ficava do outro lado da cidade, estava fora de temporada então estava vazio, encontrei o dono na rua, seu nome é Facundo, ele tinha saído para comprar frango empanado, ficamos conversando e tomando cerveja enquanto, Facundo recebeu uma ligação de um familiar que o informou sobre o estado de saúde de sua avó, ela estava internada em Buenos Aires e segundo ele não estava nada bem, disse a ele que iria procurar outro lugar caso ele precisasse viajar para Buenos Aires, mas ele disse que não poderia fazer nada e que eu podia ficar tranquilo, no dia seguinte ele recebeu a notícia de que sua avó tinha falecido e no dia seguinte ele iria para Buenos Aires, eu ainda estava fazendo meu planejamento para os próximos dias, Facundo disse que eu podia ficar à vontade e poderia até mesmo ficar no hostel até seu retorno, achei a ideia interessante pois tinha internet e um lugar tranquilo para planejar os próximos dias, mas resolvi seguir viagem no dia seguinte, aproveitei que ele tinha uma pick-up e pedi uma carona até Ceibas que era um pequeno povoado a 60km de Gualeguaychu, e estava em seu caminho para Buenos Aires.

Facundo
Facundo

Em Ceibas, ele parou em um posto na beira da estrada, disse mais uma vez que sentia muito por sua perda e nos despedimos, depois de montar a bicicleta eu comi um lanche no restaurante do posto e segui viagem, pedalei cerca de 12 km até a entrada da estrada que leva a Villa Paranacito, um pequeno povoado que fica no delta do Rio Paranacito onde ele encontra o Rio Uruguai, mas para chegar a vila eu ainda precisava pedalar mais 20 km contra o vento, cerca de 5 km antes da vila o asfalto deu lugar a uma estrada de terra, e logo começaram a aparecer os primeiros campings, encontrei um pequeno camping com um bom preço na beira do rio, após montar a minha barraca, fui conhecer a vila caminhando, aproveitei para tomar um sorvete e também comprar alguns mantimentos.

Villa Paranacito
Villa Paranacito

No dia seguinte o objetivo era chegar em Zarate, uma viagem de 90 km tomei o café da manhã bem tranquilo como pode ser visto no vídeo abaixo, mas não sabia esse seria um dos dias mais difíceis da viagem, tudo por conta da RN 12 uma das mais movimentadas da Argentina e faz a ligação de Buenos Aires com o norte do país e nesse ponto já recebeu o trafego da RN 14 que faz a ligação com o Uruguai, muitos caminhões em uma estrada sem acostamento me obrigou a pedalar olhando pra traz a todo instante e saindo da pista para a grama a todo momento.

Eu estava no meio do caminho, quando o céu começou a ficar escuro de uma forma que eu ainda não tinha visto, era possível ver no horizonte uma tempestade muito forte se formando, a chuva começou logo quando eu estava em frente a uma fazenda, vi algumas pessoas e fiz sinal, um garoto correu até a porteira, expliquei que queria me abrigar até a chuva passar para poder seguir viagem, o garoto foi perguntar aos seus pais e logo em seguida retornou para abrir a porteira, ele me indicou uma pequena casa velha ao lado da casa de seus pais, seu irmão mais novo logo veio junto e os dois ficaram curiosos com a bicicleta e com aquele ser estranho fantasiado de ciclista e que não falava muito bem seu idioma.

Enquanto eu esperava a chuva passar, expliquei para os garotos a viagem, de onde eu era e para onde estava indo, um deles saiu e voltou logo depois com uma panela de arroz e um pão, ele serviu o arroz e colocou o único pão que tinha em meu prato, achei o gesto muito generoso e logo lembrei da história de um mochileiro que passou por uma situação parecida, decidi que não podia comer todo o pão, então resolvi corta-lo em 3 pedaços mais ou menos iguais, esse foi um pequeno momento de tranquilidade em um dia difícil, a chuva parou mas o céu continuou cinza, decidi seguir viagem.

Crianças da fazenda onde me abriguei da chuva
Crianças da fazenda onde me abriguei da chuva

Continuei pedalando olhando pra traz e saindo para a grama a cada caminhão que se aproximava, ao longe comecei a ver a primeira ponte gigante que eu teria que enfrentar nesse dia, a Ponte General Urquiza sobre o Rio Parana Guazu, ao chegar perto percebi o quão perigoso era atravessar aquela ponte de bicicleta, não tinha alternativa pois a bicicleta não entrava na passagem de pedestres, então esperei o momento certo e comecei a travessia pela pista, conforme eu subia a ponte o vento ficava cada vez mais forte o que me fez começar a brigar com a bicicleta para continuar pedalando, foi quando um caminhão me ultrapassou, pela outra pista, sem tirar fina, mas foi o suficiente para fazer um corte no vento com o qual eu lutava a bicicleta puxou para o lado do caminhão rapidamente eu puxei de volta e colidi contra o guarde rail perdendo o equilíbrio e caindo, no momento não pensei em mais nada apenas levantar o mais rápido possível para sair do meio da via e ficar o máximo possível colado no canto, olhei pra traz e fiquei um pouco aliviado não vinha nenhum veículo, levantei a bicicleta e a apoiei, meu joelho esquerdo estava esfolado, braço esquerdo todo estava dolorido e essa dor persistiu por muitos dias, principalmente no pulso, um pouco abalado pelo susto resolvi que tinha que sair dali o mais rápido possível e não havia outra forma se não continuar a travessia.

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Ponte General Urquiza sobre o Rio Parana Guazu, vista de muito longe

Cheguei ao outro lado da ponte ainda assustado e desanimado devido a dor, sabia que 10 km a frente eu teria outra ponte igual pra atravessar e isso me deixava mais apreensivo, a estrada entre as pontes era igualmente perigosa para um ciclista, cheguei na Ponte General Bartolomé Mitre sobre o Rio Paraná a noite, encostei a bicicleta e fui analisar a passagem de pedestres, no sentido em que eu estava seguindo a passagem era estreita, atravessei a pista e vi que no outro sentido a passagem de pedestres era mais larga, não dá pra pedalar mas era possível empurrar a bicicleta, mas antes disso tinha um obstáculo, um desnível de 50 cm entre a calçada e a pista, como é praticamente impossível levantar uma bicicleta carregada com 50 kg, resolvi tirar toda a bagagem e subir a bicicleta, após arrumar tudo comecei a empurrar a bicicleta ponte a cima, a travessia da ponte durou mais de uma hora, cheguei em Zarate já havia passado das 22h, olhei no mapa a localização do meu contato do Warmshower, a casa não era difícil de encontrar, mas fiquei pensando se não seria inconveniente chegar tão tarde, isso estava me preocupando, mas tive um dia difícil, meu braço doía e eu queria descansar, segui até a casa do meu contato, toquei a campainha e uma mulher atendeu e me pareceu um pouco assustada, eu expliquei que eu era o André e procurava por Adrian, ela era Romina esposa de Adrian, me convidou para entrar e falou que achava que eu havia desistido de ir até a casa deles, expliquei tudo o aconteceu naquele e porquê cheguei tão tarde.

No jantar Adrian disse que era produtor de cerveja artesanal e abriu uma garrafa de sua produção, na manhã seguinte eles foram trabalhar e eu fique na casa, tratei de lavar um pouco das minhas roupas e aproveitei para comprar um chip de celular, a tarde após o Adrian retornar do trabalho eu o acompanhei na entrega de um barril de chop em um bar, segundo ele era sua primeira venda para um bar, a noite aconteceu em sua casa uma reunião com os produtores de cerveja local, o resultado disso foi tomar muita cerveja artesanal.

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Da esquerda para a direita: Angel, Adrian, Romina e Eu

Sai da casa de Adrian e Romina muito animado pois mais uma vez havia encontrado pessoas boas em meu caminho, na saída de Zarate em uma troca de marcha, por um erro meu, a corrente quebrou enquanto eu passava ao lado de um posto de gasolina, reparo feito segui viagem, andei cerca de 8 km e parei em outro posto para comer um lanche, após um bom tempo parado nesse posto resolvi seguir viagem, foi quando percebi que algo faltava em minha bicicleta, a minha capa de chuva havia sumido, o primeiro pensamento foi furto, mas logo pensei o gps ainda está no guidão, quem roubaria uma capa de chuva e deixaria o gps, lembrei do posto anterior onde parei para consertar a corrente, fiquei pensando se iria prosseguir ou retornar, poderia precisar da capa então resolvi voltar, andei mais 2 km até encontrar um retorno e voltar a Zarate, ao chegar no posto a capa estava no chão no mesmo canto onde eu parei, ninguém a viu ou se viu pensou que era um pedaço de lixo jogado no chão.

Capa de chuva recuperada segui viagem, o objetivo do dia era chegar em Luján, seguindo o conselho do Adrian, fui por uma pequena estrada muito tranquila que leva a Capilla del Señor, nesse caminho encontrei um ciclista que estava treinando, seguimos pedalando e conversando, ele morava em Capilla del Señor e perguntou se eu precisava de algo para seguir viagem, apenas água respondi, fomos até sua casa onde peguei água e descansei um pouco ele me mostrou sua sala de troféus de ciclismo, seu nome era Manangua, fiz um pequeno vídeo para registrar o momento.

Após conversar um pouco com Manangua, segui viagem, o caminho até Luján não era difícil, mas ao me aproximar da cidade fiquei um pouco desanimado, pois a entrada da cidade era por uma avenida movimentada e barulhenta com um aspecto de periferia, logo localizei a avenida onde haviam dois campings, fui me informar, um estava reservado para uma festa e por isso não estava recebendo campistas e o outro era muito caro, procurei mais e a algumas quadras dali encontrei outro camping, quase desabilitado, com chuveiros precários e um pouco mais barato que o outro da avenida principal, mesmo assim caro para os padrões de um camping, como eu já estava dentro da cidade, cansado de pedalar e estava ficando tarde resolvi ficar ali mesmo, para quem não conhece a cidade, Luján é muito visitada por conta de sua basílica, muito movimentada e por isso qualquer tipo de hospedagem é muito mais cara que a média de outras cidades próximas.

No dia 22 de novembro, dia das eleições presidências da Argentina, sai logo cedo e passei em frente a basílica para sacar algumas fotos antes de seguir viagem, lá encontrei alguns cicloturistas argentinos que estavam fazendo uma viagem de peregrinação a Luján, nesse dia meu objetivo era chegar a Cañuelas onde eu iria reencontrar o Oscar, cicloturista argentino que conheci no Uruguai e estava viajando a Ushuaia com um triciclo, segui pela RP 6 uma estrada que contorna Buenos Aires e outras cidade próximas, podemos comparar ao Rodoanel que contorna São Paulo, só que o anel de contorno estaria em Campinas, no trecho de Luján a Cañuelas não tem nenhum posto de gasolina ou restaurante de estrada, é apenas um grande deserto, o vento contra soprava com pouca força, mas o suficiente para drenar as forças aos poucos. Em um determinado ponto encontrei um ciclista empurrando sua bicicleta no mesmo sentido que eu seguia, ao me aproximar vi sua bicicleta carregada se tratava de um cicloturista e aparentemente não havia nenhum problema com a bicicleta que o impediria de pedalar,  me aproximei e o cumprimentei, ele respondeu a minha saudação com um tom de desanimo, achei estranho e mesmo assim tentei conversar mais uma vez, perguntei sobre sua viagem para onde estava indo, sem olhar para mim ele respondeu “vivo assim”, notei que o sujeito não queria conversar desejei sorte e voltei a pedalar no ritmo que vinha, alguns minutos depois ele passou por mim pedalando e alguns metros à frente parou e voltou a empurrar a bicicleta, ao passar por ele apenas fiz mais uma saudação e segui meu caminho sem retornar a vê-lo.

Cicloturistas em Luján
Cicloturistas em Luján

Cheguei em Cañuelas no fim da tarde, uma cidade menor e mais tranquila de Luján, também parecia mais agradável, como era o dia das eleições a rua estava tomada por policiais, após andar algumas quadras pela avenida principal perguntei a um policial onde era a estação de trem, não estava longe tinha que seguir por mais algumas quadras pois ficava no fim da avenida principal, Oscar fez o percurso de Buenos Aires a Cañuelas de trem por questões obvias de segurança e comodidade, pois segundo informações que teve a saída da capital pela RN 3 é um pouco complicada e perigosa, não demorou muito e o trem chegou, se passaram 10 dias desde Colonia del Sacramento onde me despedi de Oscar, e agora ele estava de volta a viagem seu objetivo  era chegar a Ushuaia, então iriamos pedalar juntos por um bom tempo.

Entrando em Cañuelas
Entrando em Cañuelas

Por enquanto é só, no próximo post da linha cronológica dessa viagem vou contar como foram os dias de pedal com o Oscar até reencontrarmos outros amigos de pedal.

Bom pedal e até a próxima!!!

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