América Austral – Chuy a Punta Rubia (Uruguai)

Chegou a hora de dar tchau ao Brasil e iniciar a fase internacional da viagem.

Antes de começar esse post tenho que fazer um pequeno comentário que ficou faltando no post anterior, quando estávamos acampando na pela estrada que atravessa a Reserva do Taim, algumas pessoas comentaram ver passar um viajante com uma espécie de triciclo de cor amarela, mas nenhuma das pessoas com quem conversamos havia conversado com o tal viajante, e não tínhamos muitas informações sobre ele.

No dia 28 de outubro, ao sair de Santa Vitória do Plamar, logo chegamos em Chuí no Brasil ou Chuy no Uruguai,  a divisa dos países está no meio da cidade em uma avenida de duas pistas chamada avenida Brasil no lado uruguaio e avenida Uruguai no lado brasileiro, na entrada da cidade encontramos dois motociclistas Rustinis e Meton que vieram de moto de Fortaleza (Ceará), fizemos amizade e procuramos um local para almoçar, após o almoço nos despedimos e começamos a resolver as pendencias que tínhamos antes de seguir viagem, também precisávamos fazer compras em um mercado, descobrimos que no Brasil a comida é mais barata que no Uruguai, então fizemos compra em um mercado no lado brasileiro, enquanto resolvíamos nossas pendencias, encontramos um cicloturista alemão, Stephan que também chegara a pouco na cidade e seguiria para o sul, o agregamos ao grupo passamos pela aduana uruguaia para carimbar os passaportes.

Em Chui/Chuy com Rustinis e Meton

Oficialmente no Uruguai seguimos para Barra de Chuy, visitamos a praia e depois fomos para o rio onde encontramos um lugar um pouco afastado da vila, lá havia um píer, uma área arborizada e uma área com banco e mesas de concreto, decidimos que ali era um bom lugar para acampar, voltamos a vila e fomos a um mercado onde compramos pão e uma garrafa de vinho de 1,5L para comemorar a entrada no Uruguai, voltando ao local do camping ajudamos alguns pescadores a tirar uma canoa do rio, eles nos deram alguns peixes recém pescados e já limpos, naquele dia cozinhamos macarrão tomamos vinho e depois fizemos uma pequena fogueira para assar os peixes na brasa, fui dormir de barriga cheia e entusiasmado por estar em outro país.

Wagner, Stephan e Leandro - Praia em Barra del Chuy - Uruguai
Wagner, Stephan e Leandro – Praia em Barra del Chuy

No dia seguinte, seguimos para Punta del Diablo onde o Stephan tinha um contato de coushsrfing e nós iriamos perguntar se o host poderia nos receber também, já que se tratava de um camping, no caminho reencontramos Rustinis e Meton no meio da estrada, após conversar um pouco e tirar outra foto fomos ao Parque Nacional de Santa Teresa onde pagamos 30 pesos uruguaios para visitar a fortaleza, após algumas horas e muitas fotos seguimos para o nosso destino do dia, ao chegar em Punta del Diablo, entrando no camping vimos algo que nos chamou a atenção…um triciclo amarelo ao lado de uma pequena barraca…mas o viajante que tanto ouvimos falar nos últimos dias no Brasil não estava lá. Fomos conversar com Julio, dono do camping, ao saber que ele não receberia mais ninguém como coushsurfing e que teríamos que pagar decidimos ir procurar outro lugar, mas depois de alguns minutos e refletir um pouco sobre nossas opções, eu, Leandro, Wagner e Stephan resolvemos voltar para o camping e dessa vez encontramos um personagem importante dessa viagem, Oscar é o nome do tal viajante de triciclo, argentino que foi a Porto Alegre para comprar o triciclo e lá iniciou sua viagem para Ushuaia, ainda nesse dia aproveitamos o fim de tarde com céu nublado do final do inverno uruguaio (sim, fim de inverno em outubro) para ver a praia e tirar algumas fotos.

Fortaleza Santa Teresa
Fortaleza Santa Teresa

De volta ao camping, conversamos com o Oscar sobre sua viagem e ele topou fazer uma entrevista para o projeto do Leandro e do Wagner, na manhã seguinte o Stephan nos disse que tinha pouco tempo para fazer sua viagem e que queria seguir viagem em um ritmo mais rápido, nos despedimos dele e agregamos Oscar ao nosso grupo, na saída do camping vimos que o Stephan tinha esquecido uma bateria e o contrato da operadora de celular Uruguai que ele tinha contratado, mandamos uma mensagem e saímos pensando chegar em Cabo Polonio.

Punta del Diablo
Punta del Diablo

Chegamos em Castillos no início da noite e logo percebemos que teríamos que ficar nessa cidade, começamos a procurar um lugar para ficar, achamos um hospital que tinha um gramado ao lado do estacionamento, perguntamos se poderíamos acampar ali por uma noite, não foi possível, mas nos mandaram a rua atrás do hospital onde havia um terreno e nos disseram para avisar a polícia que estávamos acampados ali apenas para não nos acordar durante a noite caso houvesse alguma ronda pelas ruas, confesso que nesse dia eu estava um pouco incomodado, estava com um pé atrás e estranhando a situação de acampar em um lugar totalmente aberto dentro de uma cidade, antes de montar acampamento fomos até a delegacia que ficava a uma ou duas quadras próximo ao hospital, chegando lá perguntamos se havia algum problema ou perigo em acampar onde nos indicaram, o policial disse que a cidade era tranquila e não havia perigo nenhum podíamos ficar tranquilos, deixamos as bicicletas na delegacia e fomos ao mercado comprar algo rápido para comer e procurar um lugar onde poderíamos usar o wifi, enfim após andar um pouco pela cidade montamos acampamento no terreno indicado.

Na manhã seguinte fui acordado por uma dor de barriga que me alertava para procurar um banheiro o mais rápido possível, e meu primeiro pensamento foi “estou perdido, aqui não tem banheiro”, saí da barraca e logo percebi que o Oscar também estava acordado, o avisei que eu iria procurar um banheiro no hospital e literalmente sai correndo, dei a volta na rua e chegando a entrada do hospital, entrei na porta da emergência, afinal era uma emergência, não vi ninguém e também nenhuma indicação de banheiro, sai e no pátio dei mais uma volta no hospital e achei uma porta pequena, a abri e entrei em um corredor, andei um pouco e via uma sala que acredito ser onde se preparam os medicamentos para os pacientes, fiquei pensando se devia continuar ou não, estava em uma área do hospital que provavelmente era restrita aos funcionários, mas dor de barriga me dizia que devia continuar e não havia ninguém ali para me advertir, andei mais um pouco pelo corredor até que para minha salvação e alivio encontrei um banheiro, sai pelo mesmo caminho que entrei sem encontrar ninguém.

Então começamos a procurar um lugar para preparar um café da manhã, fomos ao posto de gasolina, pois precisávamos de gasolina para o fogareiro, não lembro o motivo mas demoramos muito tempo lá, depois de algum tempo e algumas voltas pela cidade procurando um lugar para montar o fogareiro e esquentar água para fazer um café voltamos ao nosso ponto de partida, o hospital, pedimos permissão para fazer o café da manhã do pátio e lá ficamos um bom tempo, pois além do café nesse dia cozinhamos batata para reforçar o desjejum. Recebemos uma mensagem do Stephan ele iria nos esperar na entrada de Cabo Polonio para pegar a bateria que tinha deixado em Punta del Diablo. Lembro que nesse dia eu estava incomodado, talvez por não ter cumprido o trajeto planejado no dia anterior, a demora em sair da cidade de Catillos, o lugar onde acampamos, algo estava me perturbando desde a hora em que começamos a pedalar, ao chegar na entrada de Aguas Dulces eu disse ao pessoal que achava que a hora de nos separar e cada um seguir em seu ritmo estava próxima, acho que eles ficaram processando o que tinha acabado de falar e após alguns instantes de silencio, começamos a pedalar de novo e logo chegamos na entrada do Parque Nacional Cabo Polonio, Stephan nos esperava e aproveitamos para fazer uma pausa ali e comemos alguma coisa, vimos que o Stephan estava em dúvida sobre seguir viagem ou ficar uma noite mais em Cabo Polonio, como ele mesmo disse “It’s a special place” , pedimos para ele ficar conosco mais um dia e após alguns minutos ele resolveu ficar.

Eu, Wagner, Setphan, Oscar e Leandro - Entrada do Parque Nacional Cabo Polonio
Eu, Wagner, Setphan, Oscar e Leandro – Entrada do Parque Nacional Cabo Polonio

Ficamos pensado o que fazer com as bicicletas, pois leva-las até a vila é impossível devido aos 6 km em uma estrada de areia e mais 2 km pela praia, conversando com uma funcionária do parque, ela disse que podia guardar nossas bagagens em uma sala fechada e as bicicletas podíamos deixar presas em um poste logo à frente do estacionamento e tinha gente 24 horas lá, problema da bicicleta resolvido, começamos a nos preparar para o trekking e separamos algumas coisas para a noite em Cabo Polonio, lá é proibido acampar com barraca, então separamos apenas o isolante térmico, o saco de dormir, fogareiro, uma troca de roupa e um pouco de comida, saímos para o trekking de duas horas, logo a estrada de areia mostrou sua dificuldade, meus pés afundavam na areia solta e o peso da mochila logo começou a incomodar, mas a paisagem recompensava qualquer sofrimento, chegamos a praia que tinha a areia firme e logo avistamos a vila que fica em um morro a beira mar, chegando lá fomos ao único armazém da vila, compramos pão, queijo, mortadela e uma garrafa de 1,5 litros do mais barato Cabernet Sauvignon, fizemos um lanche sentados na grama ao lado do armazém, depois tratamos de procurar um lugar para tomar um banho, encontramos um hostel que estava abarrotado de gente, nos cobraram 100 pesos uruguaios por um banho, um preço razoável se considerar que o lugar é isolado, não tem energia elétrica e o aquecimento é a gás, ficamos um tempo no hostel depois saímos para passear pela vila a noite antes de encontrar um lugar para dormir, encontramos um bar mas a cerveja era mais cara que o vinho que compramos, enquanto estávamos decidindo se o que fazer encontramos um brasileiro no bar ao perceber que havia entre nós um alemão o cara começou a fazer brincadeiras sem graça com o Stephan, acho que todos ficaram incomodados com a situação então não compramos a cerveja e fomos embora.

Chegando na vila em Cabo Polonio
Chegando na vila em Cabo Polonio

Caminhando pela vila toda escura, apenas com a iluminação de nossas lanternas nos afastamos um pouco da maior porção de casas e seguimos sentido a praia, lá encontramos um parador (bar de praia) que estava fechado, mas tinha uma varanda e era abrigado do vento, resolvemos ficar ali, cozinhamos e depois estendemos nossos sacos de dormir ali mesmo, cada um em um canto da varanda do parador, no dia seguinte acordamos com a visão do mar e um sol muito brilhante, eu, Wagner, Oscar e Stephan fizemos uma caminhada entre as pedras próximas ao farol para visitar a colônia de lobos marinhos, tiramos algumas fotos, uma cerca impões um limite até onde podemos ir, ficamos ali algum tempo tirando fotos e olhando a tranquilidade dos animais, de volta ao parador começamos a arrumar nossa bagagem para fazer o trekking de volta, foram mais duas horas de caminhada na areia com sol forte. De volta a entrada do parque, mais um pouco de arrumação para colocar toda a bagagem que estava guardada na administração de volta nas bicicletas, Stephan mais uma vez se despediu de nós e seguiu seu caminho.

Lobos Marinhos em Cabo Polonio
Lobos Marinhos em Cabo Polonio
Eu, Oscar, Wagner e Stephan - observando os Lobos Marinhos - ao fundo o farol de Cabo Polonio
Eu, Oscar, Wagner e Stephan – observando os Lobos Marinhos – ao fundo o farol de Cabo Polonio

Após ver a partida do Stephan, seguimos nosso caminho com destino a La Pedrera, chegamos lá no início da noite, fomos a um mercado comprar um pouco de comida e procuramos um lugar para ficar, o lugar mais barato que encontramos não cabiam os quatro, conversando com algumas pessoas na rua descobrimos que havia um lugar voltando cerca de 2 km na estrada chamado Punta Rubia e lá havia um hostel, não foi difícil encontrar, lá chegamos ao hostel Eco Posada La Casa de la Luna, Paula, a dona do hostel nos recebeu e disse que todos os quartos estavam ocupados, mas podíamos montar nossas barracas no gramado e usar o banheiro e cozinha da casa, tratamos de nos acomodar e arrumamos algo para comer, conversamos um pouco com as outras pessoas que estavam hospedadas, uma mochileira francesa chamada Flora que fazia pão enquanto nós cozinhávamos nosso jantar, ela estava a uma semana no hostel e ajudava com as rotinas diárias como forma de pagar sua própria estadia, também havia um casa de australianos que agora não me recordo o nome e também já estavam lá a alguns dias hospedados e trabalhando, com eles vimos que é possível viajar se hospedar e trabalhar para pagar pela hospedagem.

No dia seguinte, 2 de novembro de 2015, conversamos entre nós e percebemos que estávamos muito cansados para sair de viagem naquele dia, queríamos descansar um dia e a ótima estrutura do hostel era conveniente para isso, Leandro e Wagner tentaram vender a proposta de trocar a hospedagem pela publicidade em seu site e explicaram todo o projeto para Paula, ela entendeu o projeto, disse que na noite anterior estávamos em dificuldade e por isso nos acolheu em seu hostel sem custo, e que naquele momento não precisava de tal publicidade, para ficar mais um dia seria cobrada a diária, após alguns minutos ela fez uma proposta, podíamos trabalhar um pouco para pagar a diária, no fundo do terreno havia uma arvore caída que já estava seca, ela precisava de um pouco de lenha para a lareira, no mesmo momento topamos e armados com facões fomos ajudar o rapaz australiano que já estava cortando parte da árvore, em algumas horas nós cinco fizemos uma grande pilha de madeira em um canto do quintal, perto das 14 horas fizemos uma pausa para preparar o almoço nesse momento a Paula veio nos falar que o trabalho já estava feito, resto do dia era livre, a pilha de lenha que fizemos era suficiente para queimar todas as noite durante um mês.

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Eco Posada La Casa de la Luna

Aproveitamos a tarde no hostel para descansar e fazer um pouco de nossas rotinas, eu aproveitei para lavar um pouco de minhas roupas, conversando um pouco com a Paula, ela disse que era surfista esporte pelo qual o Wagner também é interessado, então ela o convidou para ir surfar no fim da tarde, Leandro, Oscar e Flora também foram a praia naquele dia, já eu, havia muito tempo que não conversava com minha família e a saudade de ver e ouvi-los era muito grande, antes mesmo da Paula nos convidar para ir à praia eu já havia combinado uma vídeo conferencia com minha irmã e meus pais, pois a internet do hostel era boa e eu queria aproveitar para fazer isso, acho que conversei com minha família por uma hora e meia ou um pouco mais. O pessoal retornou e no caminho para o hostel passaram em um mercado e compraram macarrão e molho, a Paula disse que nós éramos seus convidados para o jantar daquela noite, arrumamos tudo e ficamos conversando, a Paula muito interessada em cultura falou um pouco sobre a mistura dos idiomas português e espanhol desde a região de fronteira entre o Brasil e o Uruguai até aquela região onde estávamos, portunhol que usamos para discriminar quem não saber falar espanhol, na verdade é a tal mistura e é muito comum encontrar uruguaios na região misturando na mesma frase palavras em espanhol e português, após falar algo tão interessante e culturalmente rico sobre a região, Wagner e Leandro a convidaram para fazer uma entrevista sobre o tema para seu documentário.

No dia seguinte, acordamos tarde, tomamos um café da manhã e decidimos sair só após o almoço para um trajeto curto até Rocha, eu aproveitei a parte da manhã para arrumar o pneu da bicicleta que furou na entrada do hostel dois dias antes, aproveitei para revesar o pneu traseiro com o dianteiro, pois o peso maior está concentrado na traseira da bicicleta, após tudo arrumado, começamos a nos despedir e sentimos que nos dois dias que ficamos no hostel fizemos amigos, a Paula se emocionou em nossa despedia e com lágrimas nos olhos disse que podíamos ficar mais tempo como convidados, a energia positiva do lugar foi muito boa para nós e estávamos renovados para continuar a viagem rumo ao sul.

Por hora é só, no próximo post eu conto um pouco mais sobre a passagem pelo Uruguai.

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