América Austral – Cañuelas a Bahía Blanca (Argentina)

Voltei a pedalar com um amigo e seguimos viagem…

No dia em que reencontrei o Oscar em Cañuelas, acampamos em um clube de jipeiros, o responsável pelo clube não cobrou nossa diária, na manhã seguinte saímos para o primeiro trecho da Ruta Nacional 3 que liga Buenos Aires a Terra do Fogo, nesse dia chegamos a San Miguel del Monte um pedal curto de mais ou menos 40 km, chegamos bem cedo e conseguimos um camping dentro da cidade à beira da Laguna del Monte, nesse dia convenci o Oscar em desviar da RN 3 e seguir para Sierra de la Ventana, depois retornar para o caminho original pela Ruta Nacional 33 que liga Tornquist a Bahía Blanca.

A caminho de São Miguel del Monte
A caminho de São Miguel del Monte

No dia seguinte saímos de São Miguel del Monte com destino a Las Flores, nesse ponto a estrada toma características marcantes e demasiada entediante, o pampa Argentino é totalmente plano e as retas não tem fim, fomos avisados de um longo trecho sem acostamento e com guard rails estreitando a pista e nos obrigando a disputar espaço na pista com os carros e caminhões,  mas o trecho longo não era tão longo assim, apenas 3 km, fizemos uma pausa em uma área de descanso ao lado de um posto de gasolina onde cozinhamos algo para o almoço, no fim da tarde chegamos em nosso destino do dia, em Las Flores pedalamos até o camping municipal que fica no Parque Plaza Montero, conversamos com o responsável pelo camping que se interessou pela nossa viagem de bicicleta e triciclo e liberou o chuveiro dos funcionários para o nosso uso, após acertar o camping decidimos ir comprar as coisas para o nosso jantar, o Oscar tratou de ir a uma carniceira (açougue), e eu fui a uma verdureria após escolher um pé de alface, tomate e cebola e perguntar quanto pagaria por aquilo, tive uma bela surpresa quando dono do comércio me disse que era um regalo, não foi a primeira vez e nem a última vez que ganhei algo na viagem, mas fiquei muito feliz, ao retornar ao camping tratamos de cozinhar um bom bife acompanhado de uma salada generosa.

Oscar no camping em Las Flores
Oscar no camping em Las Flores

Nossa próxima parada foi em Cachari, no meio do caminho enquanto procurávamos uma sombra para descansar e almoçar encontramos a entrada de uma fazenda com um pequeno quiosque para vender os produtos da fazenda, perguntamos se podíamos ficar na sobra ao lado para descansar e almoçar, uma senhora muito simpática nos respondeu que sim, após fazer nossa refeição ela veio conversar conosco perguntou da viagem e nos presenteou com um pote de mel produzido na fazenda, seguimos viagem feliz da vida com o novo doce na bagagem, ao chegar na cidade logo as pessoas ficaram curiosas e um grupo de crianças começou a nos acompanhar, fomos no comercio comprar um pouco de comida, mais uma vez fui presenteado por um cidadão generoso quando entrei em uma padaria para compra pão e ganhei uma garrafa de refrigerante, fomos ao camping municipal rodeados pelas crianças que perguntavam da viagem e sobre nossos equipamentos, como sempre o triciclo do Oscar fez sucesso, as crianças ficaram por lá por mais um tempo, depois elas dispersaram acredito que ficou tarde e já estava na hora de irem para casa.

Crianças que nos seguiram em Cachari
Crianças que nos seguiram em Cachari

O triciclo do Oscar era mais lento que minha bicicleta, com o passar do tempo combinamos uma dinâmica na estrada, uma parada a cada 20 km ou 2 horas, essas paradas serviam para comer descansar, combinar o que fazer nos próximos quilômetros e também para não ficarmos muito distantes, quando estávamos no caminho de Cachari para Azul em um determinado momento percebi uma certa demora do Oscar em me alcançar em uma de nossas paradas quando chegou ele me mostrou o bagageiro quebrado, o primeiro de vários pequenos problemas no triciclo, ele demorou para me alcançar pois parou para redistribuir o peso de seus alforges.

Em Azul conseguimos nos hospedar na casa de um coushsurfing chamado Leandro, cara muito gente boa, estudante de ciências sociais e apicultor, logo falamos sobre o mel que ganhamos no dia anterior, compramos cerveja e alguns salgados pra comer antes do jantar, o Oscar não encontrou nenhum lugar próximo para consertar o bagageiro do triciclo, e como tínhamos um coushsurfing combinado para a próxima cidade no dia seguinte não procuramos muito também, de certa forma nessa época eu ainda estava com pressa em relação a viagem, tinha a preocupação em chegar em Ushuaia próximo a virada do ano, essa pressa fez com que ficássemos apenas uma noite em vários lugares, provavelmente hoje eu faria de forma diferente.

Com Leandro em Azul
Com Leandro em Azul

Como disse no início de post, convenci o Oscar a ir até Sierra de la Ventana a cidade de Azul era nosso ponto de desvio, pegamos a estrada que leva a Olavarría que era próxima, apenas 54 km, na saída de Azul paramos em um posto de gasolina pois em questão de minutos o tempo virou e uma tempestade caiu sobre nós, aproveitamos para comer alguma coisa ali e esperar, quando a tempestade passou seguimos viagem brigando contra o vento que só deu uma trégua quando a viramos no acesso da cidade.

Chegamos em Olavarría muito cansados por pedalar o dia todo contra o vento e tratamos de procurar logo a casa do Luciano com quem fizemos contato pelo couchsurfing, chegando lá explicamos o problema com o triciclo e pedimos ao Luciano um dia a mais em sua casa, muito boa pessoa nos deixou ficar mais um dia e nos indicou onde poderíamos resolver o problema do triciclo, no dia seguinte tratamos de levar o triciclo a bicicletaria, mas só conseguimos arrumar o bagageiro em uma oficina de solda que ficava na mesma quadra, problema resolvido voltamos para a casa do Luciano e o ajudamos a limpar a casa de seus pais que estava para alugar.

Com Luciano e Anna em Olavarría
Com Luciano e Anna em Olavarría

Ainda na casa do Luciano, conversamos sobre a nossa rota para Sierra de la Ventana, foi quando ele falou sobre seus amigos que tinham uma estancia (fazenda) que estava em nosso caminho, ele ligou para Leo e Jezz e perguntou se podiam nos receber, a resposta foi ”…se chegarem ao meio dia temos um assado de cordeiro”, no dia seguinte antes as 7:00 da manhã estávamos na rua terminado de acomodar a bagarem e nos despedindo do Luciano, nunca saímos tão cedo para pedalar…rs

Como sempre o triciclo do Oscar despertava a curiosidade das pessoas, na saída da cidade paramos em um posto de gasolina, onde as pessoas curiosas vieram falar conosco, um caminhoneiro idoso ficou emocionado e começou a chorar ao ouvir o Oscar sentado no triciclo falar sobre a viagem, logo percebemos que ele estava pensando que o Oscar era deficiente físico, o Oscar levantou e lhe deu um abraço para desfazer o mal-entendido e tranquiliza-lo.

A caminho da Estacia La Elisa
A caminho da Estacia La Elisa

O dia estava muito quente e não tinha vento para atrapalhar, ou não notei se estava ventando a pressa em chegar a tempo do churrasco, lembro pouco desse caminho, chegamos quase as 13:00 na Estancia La Elisa, nome da propriedade do Leo e da Jezz, fomos muito bem recebidos e convidados para nos sentar à mesa com eles e seus amigos e então o churrasco de cordeiro foi servido, pelo que me lembro foi a primeira vez que comi cordeiro, após o churrasco ficamos conversando com o pessoal estavam curiosos pela nossa viagem e como sempre o triciclo do Oscar fez sucesso entre os curiosos, por ter chegado tão cedo ainda conseguimos lavar nossas roupas, descansar e arrumar nossas coisas para seguir viagem no dia seguinte, mais tarde fomos convidados pelo Leo para comer iogurte natural feito por eles enquanto assistíamos tv em sua casa, mas dormimos em um dormitório de funcionário que estava desocupado.

Com Leo e Jezz (Estancia La Elisa)
Com Leo e Jezz (Estancia La Elisa)

Ao nos despedir ganhamos um pouco de carne de cordeiro que naquele dia esquentamos para comer com pão e a noite usamos para fazer um arroz carreteiro, nossa parada naquele dia foi em um armazém de beira de estrada poucos quilômetros depois de entrar a Rota Provincial 51 que nos levaria até Coronel Pringles, o armazém um lugar simples que também era restaurante, bar e parada de caminhoneiros, pedimos para acampar e o dono mostrou um lugar que não estava muito bom para colocar as barracas, pois tinha muita pedra, andamos um pouco pelo terreno e encontramos um lugar com grama macia e pedimos para ficar ali, o homem disse que tudo bem, compramos refrigerante, suco e também tomamos café da manhã no dia seguinte, o nosso consumo nos deu direito a tomar banho se pagar a mais por isso.

Jezz pedalando o triciclo do Oscar totalmente carregado
Jezz pedalando o triciclo do Oscar totalmente carregado

O dia seguinte começou sem muitas novidades, não havia muito para ver na estrada e já estávamos cansados da paisagem sempre plana e a estrada sempre reta, seguimos com nossa estratégia fazer uma parada para descanso a cada 20 km, ao chegar perto da entrada da cidade de Coronel Pringles o tempo havia mudado, o sol deu lugar a nuvens escuras o vento aumentou muito e uma tempestade começou a nos ameaçar, paramos em um posto de gasolina na entrada da cidade para usar o wi-fi e pesquisar onde ficar, não havíamos conseguido nenhum coushsurfing ou warmshower, tínhamos que procurar um camping ou uma hospedagem barata, no posto conversamos com os funcionários que nos informaram que naquela semana  estava chovendo todas as noites, estávamos cansados, querendo o mínimo de conforto então descartamos o camping provavelmente encharcado, logo conseguimos o endereço de uma hospedagem, mas estava cheia, então chegamos em um hotel, contrastando com o último lugar que passamos a noite saímos de um camping em um armazém na beira da estrada para um hotel três estrelas.

Durante nossa estadia perguntamos sobre a estrada para Sierra de La Ventana, pois haviam três caminhos possíveis, pelo norte pedalando mais de 100 km, pelo sul em um caminho de 80 km que nos disseram ser muito perigoso, pois frequentemente aconteciam acidentes nessa estrada, nossa terceira opção era ir pelo “meio” em uma estrada de terra que seguia quase paralela a estrada de ferro em um trajeto de 60 km, com a chuva que estava caindo decidimos ir até a estação de trem ver o horário do trem e se poderia nos levar com a bicicleta e o triciclo.

Muito frio no trem a caminho de Sierra de la Ventana
Muito frio no trem a caminho de Sierra de la Ventana

Essa linha de trem liga as cidades de Buenos Aires e Bahía Blanca, o trem passava pela cidade muito cedo, pouco antes das 6:00, lembro de acordar muito cedo pagar a conta do hotel e sair antes do sol nascer, ao chegar na estação de trem fomos informados no guichê que só nos venderiam as passagens caso o comissário do trem nos deixasse embarcar. O trem chegou encontramos o comissário e perguntamos se podia nos levar até a próxima cidade, ele nos disse para embarcar no último vagão, mas como não era um trem com vagão de carga teríamos que pagar a mais pelas bicicletas, passagens compradas e “propina” paga e embarcamos espremidos com nossas coisas no espaço entre as portas do último vagão e o banheiro, fizemos uma viagem de aproximadamente uma hora em uma área do trem sem nenhum tipo de isolamento térmico e com uma porta aberta que deixava o vento gelado entrar, chegamos em Sierra de La Ventana congelados.

Estação de trem em Sierra de la Ventana
Estação de trem em Sierra de la Ventana

Antes de procurar qualquer lugar para ficar, entramos na loja de conveniência de um posto de gasolina, o lugar tinha calefação e wi-fi, consumimos alguma coisa e ficamos ali aproveitando a calefação, ficamos lá esperando o posto de informações turísticas abrir, onde perguntamos sobre as atrações da cidade e um local para ficar, pegamos as informações e seguimos para um camping, chegando lá tratamos de acomodar nossas coisas e ir sacar dinheiro e fazer compras, ao passar no caixa do mercado dei falta de um cartão de crédito, sempre tomei muito cuidado para não perder nada no caminho, ainda mais o cartão de crédito, utilizei outro cartão no caixa eletrônico mesmo assim voltei para procurar, não estava lá. Então lembrei que o último lugar que utilizei o cartão foi para pagar o hotel em Coronel Pringles.

O Oscar ligou para o hotel e confirmaram que o cartão estava lá, ficamos pensando o que fazer para recupera-lo a viagem de volta não valia a pena, então ligamos para o nosso contato em Bahía Blanca, Agustin que iria nos receber ao chegar na cidade, ficou combinado do hotel enviar o cartão para Agustin por um serviço de portador, algo parecido com motoboy, Agustin pagaria pelo serviço e eu o reembolsava ao chegar em Bahía Blanca, problema do cartão resolvido fomos passear pela cidade, no mesmo dia fizemos uma caminhada ao Cerro Ceferino que fica ao lado a vila e bem próximo ao camping que escolhemos, de lá é possível ver toda a vila e também a estrada que seguiríamos para Tornquist no dia seguinte até ela estrar no meio das montanhas que formam a serra.

Marco no topo do Cerro Ceferino
Marco no topo do Cerro Ceferino

No dia 3 de dezembro seguimos viagem para a cidade de Tornquist, passando pela serra onde fica o Parque Provincial Ernesto Tornquist, o clima não estava ajudando muito, começou a garoar logo cedo quando chegamos no pé da serra, ao passar pela primeira entrada do parque decidimos entrar e ver se poderíamos subir o Cerro Bahía Blanca, mas as condições do tempo não ajudaram e o acesso ao Cerro estava fechado, então fizemos um pequeno treckking em um circuito chamado Claro & Escuro ao lado do Cerro, durante a caminhada a garoa parou, as nuvens se foram e o sol apareceu forte, infelizmente já havia passado do horário limite para iniciar a subia ao Cerro, eu sábia que não teria tempo de fazer o trekking do Cerro Ventana e fiquei chateado por não poder fazer essa caminhada também, aproveitamos uma área com mesas na entrada do parque para almoçar e continuamos nossa viagem, a paisagem no meio da serra é linda, e fica difícil decidir o que fotografar, logo vimos o Cerro Ventana que dá nome a serra, tratasse de um buraco no topo da montanha, na estrada há um mirante bem em frente a essa formação, paramos ali para tirar fotos e ficamos conversando com os turistas que tinham curiosidade por nossa viagem e pelo triciclo do Oscar.

Mirante do Cerro Ventana
Mirante do Cerro Ventana

Chegamos em Tornquist no fim da tarde, entramos na cidade e paramos em um posto de gasolina, já estávamos muito cansados para pedalar por causa da serra quando descobrimos que o único camping da cidade havia ficado para traz cerca de 8 km, voltamos pela mesma estrada e entramos em uma pequena estrada de terra, chegamos no camping e estranhamos o fato de estar vazio andamos por um bom tempo até encontramos o dono que nos disse que estava fechado para reforma, mas ele nos autorizou ficar ali por uma noite sem pagar, ótimo era o que queríamos, não estávamos em condições de voltar para a cidade e procurar outro lugar.

Donos do restaurante na RN 33
Donos do restaurante na RN 33

No dia seguinte pedalamos 70 km até Bahía Blanca, pela RN 33, uma estrada que eu não recomendo pra quem está de bicicleta, não tem acostamento, é estreita tem um fluxo muito grande caminhões, que me forçava a sair para a grama constantemente, depois de um tempo percebi que os carros e caminhões davam mais espeço ao ultrapassar o Oscar, por causa da largura do triciclo, comecei a diminuir a velocidade e ficar mais perto do Oscar, mesmo assim vez ou outra alguém passava mais perto e eu descia para a grama, perto do meio dia decidimos parar em restaurante de estrada que parecia estar fechado, pra falar a verdade foi a única parada que encontramos nesse trecho, batemos na porta e ninguém atendeu, nos acomodamos em uma sombra onde pretendíamos cozinhar nosso almoço, quando uma mulher abriu a porta e nos disse que iria abrir o restaurante, entramos para pedir agua gelada, conversamos um pouco e decidimos pedir um prato, a dona do restaurante começou a perguntar sobre nossa viagem e chamou seu marido para conversar conosco, ficamos um bom tempo ali falando da viagem e mostrando algumas fotos, quando perguntamos quanto era pela nossa refeição nos disseram que não iriam cobrar, mais uma vez pessoas boas e generosas apareceram em nosso caminho ficamos felizes pois estávamos pensando em economizar nesses dias.

Fazendo empanadas na casa do Agustin em Bahía Blanca
Fazendo empanadas na casa do Agustin em Bahía Blanca

Terminamos o dia chegando na casa do Agustin em Bahía Blanca, conseguimos seu contato pelo coushsurfing, ao chegar lá ele estava recebendo um grupo de mochileiros franceses, conforme combinado peguei o meu cartão e o reembolsei pelo serviço do portador, naquela noite dividimos o custo do jantar e fizemos empanadas, Agustin cozinhou o recheio e todos ajudaram a montar as empanadas. Ficamos dois dias em Bahía Blanca e reencontramos Leandro e Wagner, nossos amigos de que nos separamos em Montevideo no Uruguai, mas vou deixar para contar no próximo post os dias que se seguiram.

Por hora é só…bom pedal e até a próxima.

Galeria de fotos.