Caminho do Frei Galvão

Aproveitei os dias do carnaval para percorrer esse lindo caminho pela Serra da Mantiqueira.

Campos do Jordão
Campos do Jordão

Desde a última cicloviagem, Rio Grande da Serra a São Sebastião, eu comecei a planejar e procurar por uma nova aventura para o Carnaval, afinal o feriado prolongado da espaço para 3 ou 4 dias de pedal, a primeira ideia era realizar a travessia do Lagamar, fiz algumas pesquisas, consegui um guia e li vários relatos de pessoas que já haviam realizado a travessia, infelizmente algumas semanas antes da viagem percebi que seria melhor deixar a viagem para outra oportunidade.

Com o Lagamar abortado, decidi fazer um trajeto menor, então veio na lembrança o Caminho do Frei Galvão, pronto tá aí, fácil de chegar ao ponto de início e retornar após a conclusão, uma distância não muito grande e também muito barato. Lembro de ter visto as placas do Caminho do Frei Galvão enquanto eu fazia o Caminho da Fé em 2010, também li os relatos de um amigo de pedal, o Romulo do blog Pedal Animal, conversei com ele um pouco sobre o caminho e peguei algumas dicas.

Caminho Frei Galvão (2)

O Caminho do Frei Galvão

Frei Antônio de Sant’Ana Galvão nasceu em Guaratinguetá-SP em 1729 e morreu em 1822 em São Paulo, foi canonizado pelo Papa Bento XVI em 2007, neste mesmo ano foi criado o Caminho de peregrinação em sua homenagem com início em São Bento do Sapucaí-SP, passando por Luminosa-MG, Piranguçu-MG, Wenceslau Braz-MG e termino em Guaratinguetá-SP, para ser mais exato o ponto final do caminho é Casa do Frei Galvão (próximo a igreja matriz de Guaratinguetá). O caminho tem cerca de 135km atravessando a Serra da Mantiqueira e pode ser percorrido a pé o de bicicleta, a orientação por onde seguir fica por conta das setas pintadas na cor azul em postes e cercas, algumas com a sigla CFG abaixo.

Caminho Frei Galvão (4)

Planejamento da trip

O caminho não é muito longo quando pensamos em uma viagem de bicicleta, porem a região é difícil devido a altimetria, logo comecei meu planejamento pensando em percorrer o caminho em três dias, decidi iniciar o pedal em Campos do Jordão por causa do horário do ônibus e então seguir até São Bento do Sapucaí para pegar a credencial e dar início ao caminho, fiz a reserva nas pousada e comprei antecipadamente a passagem do ônibus. O planejamento do pedal ficou assim:

  • 1º dia: Campos do Jordão-SP – Luminosa-MG
  • 2º dia: Luminosa-MG – Wenceslau Braz-MG
  • 3º dia: Wenceslau Braz-MG – Guaratinguetá-SP

Como a viagem era curta arrumei levei pouca coisa e coloquei tudo em uma mochila. Antes de viajar eu estava com receio de ter problemas na hora embarcar a bicicleta no ônibus por conta do feriadão, então embrulhei a bicicleta de uma maneira fácil de carregar, essa será a dica do próximo post.

Caminho Frei Galvão (5)

Primeiro dia (Campos do Jordão-SP – Luminosa-MG)

Acordei bem cedo e contei com a ajuda do meu pai que me levou de carro até o Terminal Tiete, retirei minha passagem no guichê e fui para a plataforma de embarque, quando o ônibus chegou achei que teria algum problema com a bicicleta, mas dessa vez porque a estrutura da carroceria do ônibus era toda fechada em chapa então não dava para amarrar meu pequeno embrulho na armação, o auxiliar que fica na plataforma pediu para eu colocar a bicicleta em pé, achei que a bicicleta iria cair e ficar escorregando de um lado para o outro, porem quando cheguei em Campos do Jordão e o bagageiro foi aberto notei que o funcionário do terminal Tiete colocou as malas dos passageiros de forma que “travou” a bicicleta e a protegeu de uma provável queda durante a viagem.

Caminho Frei Galvão (3)

Ainda na rodoviária de Campos do Jordão, montei a bicicleta e descartei todo o plástico e papelão do embrulho em uma lixeira, fui até a lanchonete reforçar o café da manhã e sai para meu pedal, saí de Campos do Jordão pela serra velha que leva a Santo Antônio do Pinhal e São Bento do Sapucaí, já passei nessa serra algumas vezes mas sempre subindo por causa do Brevet 200 realizado ali.

Ao chegar na base da serra já estava em um bairro mais afastado de São Bento Sapucaí, então via uma pequena estrada com uma placa indicando a cidade não era o caminho que eu havia planejado mas após perguntar a um Senhor que caminha pela beira da estrada e ouvir uma explicação tão rica em detalhes, mas tão rica que ficou confusa decidi conhecer esse caminho, após alguns quilômetros de asfalto veio uma pequena estrada de terra, mas também não durou muito, saí em Sapucaí-Mirim, então mais alguns quilômetros de asfalto e cheguei em São Bento do Sapucaí.

São Bento do Sapucaí
São Bento do Sapucaí

Em São Bento do Sapucaí, procurei um lugar para almoçar, na verdade comi um lanche, e dei uma volta pela cidade que é bem simpática, então segui para o Bairro do Quilombo já na saída da cidade, no Bairro do Quilombo fui até um lugar chamado Arte no Quilombo, local onde o Seu Brinco (mantedor do caminho) disse que eu iria pegar a credencial do caminho. Como o Brinco já havia me avisado ele não estaria local, quem me entregou a credencial foi a esposa dele, não lembro o nome dela, ela me informou que havia um grupo de seis pessoas caminhando na minha frente e que iniciaram a peregrinação naquele mesmo dia, com certeza eu os encontraria em algum ponto a frente.

Bairro do Quilombo
Bairro do Quilombo

Segui pela rua que corta o bairro até chegar em uma estradinha de terra já no iniciando a subida de um morro, a minha frente está uma serra, logo senti a dificuldade da inclinação muito elevada e tive que começar a empurrar a bicicleta, sempre que parava e olhava para traz via o Bairro do Quilombo cada vez mais distante e não demorou muito para conseguir ver a cidade de São Bento do Sapucaí inteira. Essa parte do caminho é bem complicada, pois a subida é muito íngreme e quando está próxima do topo a estrada fica cada vez mais estreita, se transforma em uma trilha em meio a duas cercas que separam os pastos, ali é bem escorregadio, mas o pior é mais a frente quando se chega ao topo do morro e tem que atravessar uma trilha que parece um pequeno corredor escavado pela enxurrada das chuvas, ali não dá para pedalar e também não dá para ficar ao lado da bicicleta enquanto a empurra, além de muito escorregadio, nesse ponto fiquei tão desanimado que não tirei fotos, a única foto que é a saída dessa trilha que acaba em uma cerca com uma pequena porteira de arame, depois dessa cerca vem uma trilha mas agora descendo, também escorregadia por causa da umidade e que merece atenção redobrada, foi nessa trilha que em um determinado momento eu desmontei da bike para passar por um trecho que não tive muita confiança em passar pedalando, após alguns passos veio o escorregão, eu cai, a dor no momento foi tão forte que vi estrela e ainda me rendeu alguns dias dolorido, já estava no chão aproveitei para ficar sentado e baixar a adrenalina e depois seguir caminho.

Chegando em Luminosa
Chegando em Luminosa

Logo mais a frente essa trilha fica plana, é um sigle-track bem estreito e com muitos galhos atravessados, depois chega em um lago que deve ser contornado para chegar em uma descida que dá acesso a uma estrada que é quase toda descida até chegar em Luminosa, nessa estrada encontrei duas pessoas, a Nancy e o Marcelo, do grupo de caminhantes, parei para conversar com eles um pouco, me informaram que o resto do grupo estava na frente. Cheguei em Luminosa era mais ou menos 18:00, fui para a pousada onde encontrei o pessoal (Regina, Thorsten, Arnaud e Berenice) que estava fazendo o caminho a pé também haviam outros hospedes na pousada mas realizando o Caminho da Fé (Luciano, aparece de capacete na foto abaixo), é em Luminosa que os dois caminhos se cruzam. O clima na pousada era descontraído, durante jantar ficamos conversando sobre o Caminho Frei Galvão e Caminho da Fé.

Segundo dia (Luminosa-MG – Wenceslau Braz-MG)

Ao acordar vi que o pneu traseiro estava murcho, resolvi que iria tomar café da manhã e só depois resolver aquilo, depois vi que um pequeno pedaço de arame causou um micro furo na câmara que foi murchando durante a noite, durante o café encontrei o pessoal de novo, conversamos mais um pouco e após tudo arrumado segui viagem os deixando na pousada.

Esqueda para direita: Thorsten, Regina, Berenice, Luciano, Arnaud, Nancy e Marcelo
Esqueda para direita: Thorsten, Regina, Berenice, Luciano, Arnaud, Nancy e Marcelo
Dona Ditinha e Seu Nilton
Dona Ditinha e Seu Nilton

A paisagem da saída de Luminosa é muito interessante, é nítido que esse pequeno subdistrito que pertence a cidade de Brasopolis-MG estra encravado em um pequeno vale no meio da serra, não importa a direção que você vá em algum momento terá que subir um morro, e após alguns quilômetros encontrei o morro que está me meu caminho, subida superada cheguei em Piranguçu próximo ao horário do almoço, tentei procurar a pousada dentro da cidade para coletar o carimbo, mas não a encontrei, resolvi então almoçar no único restaurante que encontrei aberto e após isso segui viagem, a saída da cidade é tranquila até o momento em que cheguei em uma fazenda, há uma porteira e após ela um grande pasto, quando passei haviam ali alguns bezerros e um ganso bem acomodado na sombra de uma arvore, após esse pasto a subida é bem íngreme com muitas pedras soltas e um pouco de erosão em alguns pontos e segue em uma subida quase que constante até atingir pouco mais de 1.400 m de altitude, durante essa subida parei em vários pontos, para descansar e apreciar a paisagem que estava ficando pra traz, enquanto eu subia vi um grupo de ciclistas descendo, um motociclista que parou para conversar ele havia acabado de levar um amigo até a rampa de decolagem de parapente que tem no alto do morro e estava indo fazer o resgate e por fim dois peões da fazenda subindo a cavalo, aliás era perceptível a força que os cavalos tinham que fazer na subida devido a inclinação do trecho.

Caminho Frei Galvão (62)

Quando cheguei no topo olhei pra traz e vi toda a imensidão do vale, de lá é possível ver Piranguçu e um pouco mais longe outra cidade, acho que vale lembrar aqui que durante a subida eu escutava trovões e via nuvens escuras por toda a região, mas por sorte onde eu estava não choveu, a decida para o outro lado é igualmente inclinada, com erosões e cascalho solto, em alguns pontos da decida para manter a estabilidade eu fui arrastando um pé no chão ao chegar lá em baixo, vi que minha velha sapatilha não aguentou e abriu um rasgo na sola do dedão até o calcanhar, mas ainda dava para pedalar, ela só precisava aguentar mais um dia.

A vista no topo da serra
A vista no topo da serra

Nesse ponto o caminho segue por uma estrada de terra quase toda plana, apenas um trecho tem uma pequena subida mas nada comparado a serra que tinha acabado de enfrentar, essa estrada de terra termina na Rodovia Juscelino Kubitscheck de Oliveira que liga Itajubá a Wenceslau Braz, e claro nesse ponto o caminho segue pelo asfalto pois a cidade já está bem próxima, chegando em Wenceslau Braz parei em uma lanchonete para comer um lanche e depois segui para a pousada Castelinho, que fica na estrada mesmo logo após a Igreja. Chegando na pousada eu era o único hospede, estava tão cansado que após guardar a bicicleta em um salão na parte de baixo do castelo fui logo para o quarto tomar um banho e dormir.

Terceiro dia (Wenceslau Braz-MG – Guaratinguetá-SP)

No trajeto entre Wenceslau Braz e o Bairro dos Pilões, há alguns trechos de trilha e segundo algumas recomendações que pesquisei antes da viagem, esse trecho fica muito difícil em condições de chuva, pois bem, logo de manhã conversei com a Patrícia (dona da pousada) ela me informou que choveu muito na região antes da minha chegada, associei isso as recomendações que já tinha e achei prudente abortar o último trecho e seguir pelo asfalto, descendo a serra até Piquete já no estado de São Paulo e de lá até Lorena e então pegar um pequeno trecho da Dutra para chegar em Guaratinguetá.

As torres do Castelinho
As torres do Castelinho

Segui por esse caminho, ao sair de Wenceslau Braz a estrada continua em uma subida quase que constante por mais ou menos 27km, alguns quilômetros antes de chegar no ponto mais alto se chega a estrada que liga Delfim Moreira-MG a Piquete-SP, nesse ponto fiz uma parada em um restaurante, depois de um lanche, foi só descer a serra até Piquete, antes de terminar a descida da serra é possível avistar alguns bairros da cidade na encosta dos morros, após piquete há uma longa reta que segue até Lorena, depois um pequeno trecho pela Dutra e eu cheguei em Guaratinguetá. Logo que entrei na cidade fui me informar em uma pequena venda sobre a Casa do Frei Galvão, o caminho até lá era fácil, passei ao lado da igreja matriz, desci uma quadra, virei a direita em uma rua estreita e….finalmente cheguei.

Caminho do Frei Galvão concluído
Caminho do Frei Galvão concluído

Ao entregar a credencial expliquei para a funcionária do museu que funciona ali o desvio que fiz no caminho, ela disse que tudo bem, pois se o trecho estava ruim para passar eu não tinha o que fazer, peguei o certificado e vi um pouco do museu, fiquei ali alguns minutos pensando na aventura que estava chegando ao fim, depois segui para a rodoviária pegar o ônibus de volta para São Paulo.

Essa cicloviagem foi muito legal, atravessa uma região linda, com belas paisagens, e tem alguns trechos difíceis com longas subidas bem inclinadas.

Para que quiser realizar essa viagem, é interessante reservar as pousadas com um pouco de antecedência, não por concorrência, pois a cidadezinhas são pouco movimentadas, mas justamente por isso, os donos das pousadas precisão saber que você está a caminho e se preparar para te receber.

Se chover alguns trechos podem ficar bem complicados então é legal verificar a previsão do tempo antes de ir.

Vou deixar aqui os contatos das pousadas onde fiquei.

  • Luminosa – Pousada N.Sra.das Candeias – Dona Ditinha – Tel. (35) 3641-4004 (a pousada também recebe peregrinos do Caminho da Fé)
  • Wenceslau Braz – Pousada Castelinho – Patrícia – Tel. (35) 9833-6220 (a pousada também recebe peregrinos do Caminho de Aparecida)

Infelizmente não tenho mais o contato do Seu Brinco, que é responsável por entregar a credencial ao peregrino no início do caminho, acredito que com algumas pesquisas na internet é possível achar os contatos necessários para realizar o caminho.

Para mais informações você pode realizar uma pesquisa no site da Casa do Frei Gralvão

Bom pedal e até a próxima!!!

Galeria de fotos

Comentários

    1. Obrigado Ju, mas preciso melhorar minhas fotos…rsrs…ahh…por falar em fotos eu preciso redimensionar todas elas pois ainda estão no tamanho que era compativel com o tema antigo.

  1. O trecho final entre Wenceslau Braz e Guaratinguetá está impraticável para bikes, mesmo em tempo seco. Saindo da trilha estreita que tem após a fazenda Boa Esperança, há um desvio em péssimas condições – muito íngreme e com valetas e erosões – que foi criado recentemente para evitar a passagem por uma propriedade particular (antiga “Pousada do Barão”), antes de chegar no alto da serra.
    E na trilha que desce a serra para Pilões, simplesmente não tem como pedalar na maior parte dela (e acredite, eu sou downhilleiro), são duas horas empurrando a bike dentro de uma vala cheia de pedras e buracos com mais de 2m de profundidade.
    Uma alternativa seria pegar a estrada de terra que tem logo após Wenceslau Braz, subindo rumo ao bairro do Charco, e de lá seguir pelo alto da serra até chegar na descida das Pedrinhas. Vale dizer que é um pedal relativamente puxado de se fazer, devido à altimetria e às trilhas íngremes após o Charco.
    Outra opção é seguir no roteiro tradicional até a faz. Boa Esperança e seguir para a pousada do Barão (antigo caminho), porém passando reto por ele (permanece na estrada de terra) e segue até chegar na trilha do Cavalo, que desce para Piquete.

    1. Marcelo,
      Muito obrigado por suas dicas, tenho um amigo que filmou a trilha para descer a serra para o bairro dos Pilões, e realmente é muito complicado, fiz o desvio pelo asfalto pois não conhecia outra alternativa.
      Grande Abraço!

  2. Legal o relato André, pena o clima não ter permitido seguir o caminho “original” no ultimo trecho, eu pretendo fazer esse Caminho a pé futuramente, Parabéns!!!

    1. Oi Alison, Muito obrigado, realmente foi uma pena não conseguir fazer o ultimo trecho. Boa sorte em sua caminhada. Abraço!!!