América Austral – Montevideo a fronteira com a Argentina

Montevideo ficou para traz…

Como contei no post anterior (clique aqui), eu e Oscar nos despedimos de Leandro e Wagner e seguimos viagem deixando Montevideo para traz e demorou um pouco para ver a paisagem urbana dar espaço a paisagem rural, me lembro de não conversamos muito nesse trecho, talvez pela diferença de idiomas, talvez porque nossos amigos falavam muito mais do que nos dois ou talvez pelo clima de despedida. Pedalamos cerca de 10 ou 15 km até ver alguma coisa verde, já era tarde e paramos no primeiro posto de gasolina que encontramos, pedimos para acampar ali, não foi possível, decidimos seguir mais alguns quilômetros, pois havia outro posto chegando em Ciudad del Plata, um posto muito maior que o anterior, no fundo havia uma área para estacionar caminhões e mais atrás havia uma área protegida do vento e de qualquer motorista de caminhão distraído, conseguimos acampar ali, resolvemos cozinhar um pouco de arroz e eu estranhei o quanto foi rápido para ficar pronto, estava acostumado com o tempo demorava para cozinhar comida suficiente para quatro pessoas e sempre sobrando um pouco para repetir.

No dia seguinte, tínhamos que avançar bastante, e pedalamos o dia todo pela Ruta 1 que é autopista sem muitos atrativos, o dia todo tivemos sol, mas no fim da tarde já próximos a Colonia Valdense, o tempo mudou e a chuva começou a dar as caras, ao entrar na cidade paramos em um restaurante e pedimos para usar o wifi para procurar onde ficar, mandamos de última hora mensagem aos Coushsurfers da região e após uma ou duas horas sem resposta, começamos a procurar algum lugar onde ficar, pensamos em voltar para a estrada e acampar ao lado do posto policial, mas com a chuva seria complicado montar as barracas sem molha-las por dentro e também seria difícil manter os sacos de dormir limpos e secos, começamos a procurar uma pousada e no posto de gasolina ao lado do restaurante, um frentista brasileiro que morava na cidade há alguns anos, nos disse para ir até o clube, pois havia atrás do clube uma pousada. Pedalamos até lá, a pousada era cara demais para o que disponibilizava, mas era isso ou acampar na chuva.

Encontro com o cicloturista Andrés Tanquía
Encontro com o cicloturista Andrés Tanquía

No terceiro dia após sair de Montevideo, finalmente chegaríamos a cidade história Colonia del Sacramento, logo nos primeiros quilômetros do dia, saindo de Colonia Valdense, encontramos Andrés Tanquía um argentino que pedalava no sentido contrário e estava viajando com muito pouca carga, havia cruzado naquela manhã de Buenos Aires e tinha como destino final o Brasil, sua viagem pode ser vista em sua página no facebook clicando aqui, após saber um pouco de sua história seguimos viagem, a proximidade de Colonia del Sacramento nos animava e preocupava, pois enviamos mensagens aos Coushsurfers e Warmshowers da cidade no dia anterior, e somente ao chegando na cidade saberíamos se alguém poderia nos receber, ao entrar na cidade fiquei um pouco desanimado, pois a primeira vista me pareceu uma cidade grande e moderna, nada de histórico nos primeiros quilômetros dentro da cidade, paramos em um posto e pedimos para usar o wifi, nenhuma resposta das pessoas com quem tentamos contato, começamos então a pesquisar os hostels da cidade, até que encontramos um hostel que estava barato o suficiente para ficar alguns dias e não estava muito longe de nós. Pedalamos até lá e descobrimos que o hostel próximo ao embarque do barco que liga Colonia del Sacramento a Buenos Aires, a arquitetura no local também mudou e vimos que o centro histórico estava a duas quadras, a minha percepção da cidade mudou completamente nesse momento, acomodados no hostel com a bicicleta e o triciclo guardados no pátio, perguntamos por um mercado, descobrimos que também estávamos a duas quadras do centro comercial da cidade, resolvemos que  nesse dia deveríamos comemorar a chegada em Colonia com cerveja.

Fim de tarde em Colonia del Sacramento
Fim de tarde em Colonia del Sacramento

No dia seguinte, após o café da manhã, aproveitei o serviço de lavadeira do hostel, normalmente eu mesmo lavaria minha roupa, mas estava tão cansado que resolvi ter um pouco de “mordomia”, o Oscar foi até o serviço de barco que faz a travessia para a Argentina e comprou sua passagem para o primeiro barco do dia seguinte, as 4:00 da manhã, depois fomos ao centro histórico para tirar fotos, o centro é repleto de ruínas da colonização e há outras construções antigas, porem de outras épocas. Decidimos que devíamos voltar ao centro histórico no fim da tarde para tirar fotos do pôr-do-sol, nesse dia resolvemos tirar a barriga da miséria, compramos carne, ovos e batatas para fazer no jantar, combinei com o Oscar que o iria acompanhar no embarque, levantei as 3:00 da manhã e ele já estava com todas as coisas prontas e postas no triciclo, caminhamos até o local de embarque, lá nos despedimos e desejamos sorte um ao outro, nesse momento ainda não sabíamos se nos encontraríamos novamente na viagem, voltei para o hotel com a sensação de estar recomeçando a viagem mais uma vez, pois estava acompanhado desde o dia em que sai de Rio Grande no litoral do Rio Grande do Sul.

Ruinas ao lado do farol de Colonia del Sacramento
Ruinas ao lado do farol de Colonia del Sacramento

Voltei a dormir e acordei tarde, estava chovendo e assim ficou o dia todo, decidi que iria planejar os próximos dias procurando algum contato no coushsurfing  no warmshowers nas próximas cidades, revisei as distancias e quando a chuva deu uma trégua fui até o supermercado comprar a comida que eu carregaria nos próximos dias, de volta ao hostel e começou a chover de novo, aproveitei para botar a conversa em dia com a minha família pelo Skype, e aproveitei para escrever um pouco para o blog, fiquei praticamente o dia todo na sala de tv do hostel, onde o sinal do wifi era melhor, fiz amizade com algumas pessoas que estavam hospedadas lá, um casa de franceses que estavam viajando de carona para a Patagônia e duas mulheres turcas que vieram de Buenos Aires e estavam indo para Montevideo.

Colonia del Sacramento
Colonia del Sacramento

No da 13 de novembro estava mais uma vez pedalando sozinho com destino a cidade de Carmelo, para sair da cidade atravessei o centro comercial de Colonia del Sacramento e logo cheguei a uma praia, parei para tirar algumas fotos e em minha memória tinha que ali era o caminho correto para sair chegar a Ruta 21, após alguns quilômetros me dei conta que estrada seguiria um pouco afastada da costa, então mas de certa forma paralela a avenida que eu seguia, entrei nas ruas de um bairro com ruas de terra e após alguns quilômetros cheguei a Ruta 21 e a segui sentido norte. No começo foi um pouco estranho pedalar sozinho, eu senti que era um recomeço da viagem, e teria que reencontrar meu ritmo, parei em uma pequeno posto de gasolina quilômetros antes de chegar em Carmelo, queria usar o wifi para verificar se algum coushsufing da cidade havia respondido, enquanto verificava meu e-mail no celular um senhor com sua família em uma caminhonete entra no posto para abastecer, veio perguntar sobre a bicicleta e minha viagem e após conversar um pouco me ofereceu lugar para passar a noite em seu sitio que ficava 5 km a frente, sem saber se aceitava ou não, agradeci e disse que queria chegar na cidade nos despedimos, ele pagou o combustível e foi embora, na mesma hora em que via a caminhonete sair do posto veio o sentimento, “eu sou muito burro, não tenho onde ficar e acabei de recusar um convite para dormir em um sitio e muito provável que seria convidado para jantar junto com a família”, pedalei o resto do caminho me torturando com a ajuda que eu havia acabado de recusar e pensando o que dizer caso encontra-se em meu caminho a caminhonete, “Hola, desculpa, todavia estoy invitado?”, mas não voltei a ver a caminhonete.

Cheguei na entrada da cidade e após passar por um bosque cheguei ao acesso para a Playa Seré, lá encontrei um ciclista local e perguntei sobre um camping, ele me aconselhou a ira até a praia e procurar o camping do Yate Clube na frente da prefeitura da cidade, pois o camping municipal ao lado tinha grande índice de assalto. Fui até o Yate Clube, estava aberto, mas como cheguei tarde não encontrei nenhum funcionário, mas encontrei algumas pessoas em um barco, perguntei sobre o camping e me indicaram o local e disseram que normalmente as pessoas que chegam tarde, acampam e no dia seguinte acertam a conta. Fiquei um tempo pensando em o que fazer, li a tabela de preços que estava fixada na porta do prédio administrativo, camping era caro e o banho pago a parte, fui até o banheiro e os chuveiros funcionavam com uma espécie de ficha que devia ser comprada na administração, pensei um pouco mais, me torturei mais um pouco por ter recusado o convite para dormir no sitio e decidi que se teria que pagar para dormir então iria procurar um hostel, pelo menos teria uma cama, então segui para o centro da cidade, ao chegar lá comecei a andar pelas ruas procurando um hostel ou até mesmo um hotel com uma aparência simples na esperança de encontra um local barato para passar a noite, nesse momento um carro com dois ocupantes, um casal, me passou e parou alguns metros à frente, o motorista veio falar comigo, pergunto de onde eu vinha eu respondi Brasil, então ele disse que já havia hospedado um ciclista e me perguntou se eu queria um lugar para ficar, sem pensar respondi que sim, e então ele me pediu para seguir seu carro.

Ann, Nicolas, eu e Francisco
Ann, Nicolas, eu e Francisco

Pedalei algumas quadras seguindo o carro até chegar em uma propriedade no limite da cidade, onde haviam duas construções, uma casa mais ao fundo e um prédio construído de adobe, uma espécie e massa feita com barro e palha em uma armação de madeira, e com grandes janelas de vidro, meus anfitriões Nicolas e Ann, ele uruguaio e ela belga, me explicaram que ali era um restaurante, Fangô Restobarro (clique para ver a página no facebook), que estaria aberto em duas semanas e toda a construção foi feita por eles. Nesse dia tinha um jogo de futebol entre Brasil e Argentina, Nicolas ligou para um amigo que morou no Brasil para vir ao restaurante assistir ao jogo, Francisco chegou falando português, assistimos ao jogo e comemos pizza feita pelo Nicolas, conversamos um pouco e claro eu expliquei a minha viagem, nesse dia eu estendi o meu saco de dormir em um canto dentro do restaurante. No dia seguinte, enquanto arrumava as minhas coisas para partir, Nicolas me mostrou o resto da propriedade e a horta que tinha no fundo da casa onde cultivava parte dos ingredientes das receitas de seu restaurante, nesse momento entendi o quanto aquele local e as pessoas eram especial, antes de sair Nicolas colheu alguns morangos e ervilhas que tratei de comer naquele mesmo dia a caminho de Dolores, minha próxima parada.

Morango e ervilhas frascas
Morango e ervilhas frascas

Em Dolores, eu consegui um contato pelo coushsurfing quando fiz meu planejamento antes de sair de Colonia del Sacramento, cheguei em Dolores relativamente cedo naquele dia, lembro apenas de ter saído um pouco tarde de Carmelo, parei para almoçar no meio do caminho, quando cozinhei um arroz acompanhado das ervilhas frescas em um ponto de ônibus e cheguei ao meu destino com luz do dia ainda. Achar a casa da família que me recebeu foi fácil, a cidade é pequena e com ruas paralelas, ao chegar na casa fui recebido por Pablo e Mariana e também por sua filhinha Paula. Pablo estava curioso quanto a minha viagem, aproveitamos para tomar um mate enquanto eu explicava para ele todo o trajeto que tinha feito, pretendia fazer, a bicicleta e a minha motivação para realizar essa viagem, ele me explicou que estava no coushsurfing porque gostava do espirito de viajante e que receber viajantes em sua casa era uma forma de conhecer diferentes culturas. No dia seguinte enquanto eu arrumava minhas coisas para seguir viagem, Pablo e Mariana receberam um casal de amigos e sua pequena filha igualmente curiosos com a minha bicicleta totalmente carregada, depois de conversarmos um pouco, Pablo me deu algumas dicas de onde poderia passar a noite e também uma dica muito importante em relação onde trocar dinheiro ao entrar na Argentina pela ponte de Fray Bentos a Gualeguaychú.

Pablo, Mariana e sua filhinha Paula
Pablo, Mariana e sua filhinha Paula

Sai de Dolores, me sentindo bem em relação aos últimos dias que passei no Uruguai, sentimento de ter aproveitado o máximo possível minha passagem pelo pais e ter conhecido pessoas incríveis nessa jornada, ao sair na estrada comecei a sentir um grande peso para pedalar, era vento contra que ao longo do dia esgotou minhas forças, ao chegar em Mercedes ainda faltavam 35 km para Fray Bentos, eu já estava muito cansado e sabia que não iria conseguir pedalar o trecho que eu havia planejado, ao entrar na cidade passei pelo que parecia ser o estádio municipal, nesse dia havia um jogo e a bagunça que vi ali me deixou desanimado em relação a cidade, e logo pensei aqui não seria um bom lugar para ficar, desanimado, cansado e com fome, decidi ir até o centro da cidade, onde encontrei um posto de gasolina, ao contrário da região onde estava o estádio, o centro estava vazio e tranquilo e isso melhorou a minha expectativa quanto a cidade, enquanto eu comia uma bolacha na loja de conveniência do posto, pensava se era melhor seguir viagem ou passar a noite ali, sem internet não conseguiria pesquisar nenhum lugar gratuito ou barato para passar a noite, o jeito foi sair pedalando pelas ruas do centro e perguntar em cada hotel o valor de uma pernoite, encontrei um lugar não muito barato para seus padrões, mas era um dos mais baratos da cidade, resolvi ficar ali, após um banho e descansar um pouco sai para comer alguma coisa, eu não tinha vontade de cozinhar, aproveitei para comprar uma bolacha para servir de desjejum na manhã seguinte junto com a aveia e doce de leite que tinha.

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O dia 16 de novembro foi o último dia em que pedalei no Uruguai, nesse dia acordei cedo, pois queria fazer o revezamento da corrente da bicicleta, deixei toda a bagagem no quarto, peguei apenas a bolsa de ferramentas e fui até o posto de gasolina em que parei no dia anterior, expliquei o que precisava fazer e pedi um canto onde pudesse limpar a corrente e realizar a troca da mesma (carrego duas correntes e faço o revezamento delas perto de 1.000 km). Revezamento feito, voltei para o hotel, arrumei todas as minhas coisas e segui viagem, na estrada eu pensava se iria seguir para Argentina ou ficaria um dia a mais no Uruguai, nesse dia o vento não atrapalhava e eu consegui pedalar relativamente rápido, parei em um posto que fica no cruzamento da rota 2, que eu seguia, e a rota 24, fiquei ali pensando o que fazer, em um canto do estacionamento cozinhei um pouco de polenta para almoçar e então decidi que era hora de seguir viagem rumo a Argentina, me senti feliz ao perceber que havia cruzado um pais de bicicleta, mesmo sendo um dos menores da América do Sul, e estava iniciando a minha jornada para cruzar outro país, e fiquei ansioso com a sensação de estar entrando em um terreno desconhecido, aproveitei o momento para gravar um pequeno vídeo colocando a bandeira da Argentina em minha bicicleta.

Mais alguns quilômetros pedalados e eu cheguei na aduana, antes de carimbar o passaporte encontrei o senhor que realiza o câmbio no local, dica do Pablo de Dolores, esse senhor seria confiável para trocar dinheiro na divisa entre os dois países, dinheiro trocado fui tratar de carimbar o passaporte, esse posto de fronteira funciona como um pedágio, os carros param ao lado de uma guarita onde se entrega os documentos para realizar o tramite da fronteira, após esperar alguns minutos na fila atrás de um carro, entreguei meu passaporte e após ter o carimbo de entrada na Argentina fui informado que não poderia atravessar ponte pedalando, demorou um ou dois minutos pra cair a ficha de que eu estava preso no posto de fronteira, para minha sorte ali é a rota dos caminhões que transportam carga entre Uruguai e Argentina, fui conversar com um caminhoneiro que estava se preparando para seguir viagem, expliquei eu estava viajando de bicicleta e não podia passar pela ponte e pedi uma carona somente até o outro lado, ele disse que tudo bem, colocamos a bicicleta deitada entre a cabine e a carreta, subi no caminhão e atravessamos a ponte sobre o Rio Uruguay, cerca de dois ou três quilômetros a frente eu desci do caminhão em território argentino.

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Carona no caminhão para atravessar a ponte que liga Fray Bentos no Uruguai a Gualeguaychu na Argentina

E foi assim que passei pelo Uruguai, um pais que me surpreendeu e que tenho vontade de voltar um dia, no próximo post eu início os relatos da minha passagem pela Argentina.

Bom pedal e até a próxima.

Galeria de fotos.