América Austral – Criciúma (SC) a Bojuru (RS)

Então deixei a companhia do Xikaum pra trás e segui sozinho…

A saída de Criciúma é estressante como qualquer cidade grande, pedalei cerca de 12 km para chegar até a BR-101 em uma pista com transito intenso com devido o acesso a maior estrada da região, já na BR-101 resolvi seguir o conselho que recebi na loja de bike no centro de Criciúma e mudei meu roteiro, desisti de seguir direto para Balneário Gaivota e resolvi passar por Morro dos Conventos fazendo o caminho pelo Rincão, então peguei a BR-101 sentido norte e andei alguns quilômetros até a entrada para o Rincão, peguei uma estrada muito tranquila, que passa por uma paisagem que é um misto de interior e litoral, ainda não tinha tomado um caldo de cana nessa viagem, foi quando avistei uma lanchonete a beira da estrada chamada Caldo de Cana Cardoso, resolvi parar descansar um pouco e tomar um caldo de cana, conversei com os donos muito simpáticos, expliquei a viagem, confirmei como chegar em meu destino, eles tiraram uma foto minha e então segui viagem. Após alguns quilômetros vira em uma estrada vira em outra e pronto estou em uma estrada de terra, acho que foram 20 km até chegar na balsa para atravessar o rio (desculpa, esqueci o nome do rio), a travessia gratuita em uma balsa pequena puxada por um pequeno barco que com um caminhão e dois carros e minha bike já estava cheia.

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Terminada a travessia segui por mais alguns quilômetros em estrada de terra até chegar em Morro dos Conventos, foi então que começou uma situação que se segue até hoje (21/10) estou passando pelo litoral sul do país totalmente fora de temporada, então estou encontrando quase tudo fechado, campings, pousadas, comercio, pois bem chegando em Morro dos Conventos vi a placa de camping apontando para um terreno enorme mas que acabara de ter as arvores cortadas e todo o solo estava revirado para retirada das raízes, andei um pouco e pedi informações em um mercado, o dono do mercado me falou que aquele era o camping mas estava desativado me indicou outro local um pouco mais a frente que fazia parte do camping e também haviam algumas cabanas, cheguei no local e logo vi que estava fechado, conversei com os funcionários que estavam ali trabalhando eles me informaram que o camping não funcionava mais, mas o dono era também o dono do hotel ali perto e que eu poderia tentar falar com ele para conseguir acampar ali por uma noite, fui até o hotel na entrada expliquei a situação para a atendente, ela me pediu para aguardar e foi conversar com o dono que estava em outra sala, alguns minutos e ela retorna dizendo que ele liberou a minha entrada na área das cabanas onde eu poderia montar minha barraca, chegando lá o funcionário do camping chamado Marco me disse que se eu quisesse poderia ficar dentro do galpão da churrasqueira que era mais abrigado do vento, ele também ligou a energia elétrica da área que eu fiquei e dos chuveiros, feito, montei apenas a parte interna da barraca por causa dos mosquitos, e pela primeira vez na viagem usei meu fogareiro, fiz um macarrão.

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Galpão da churrasqueira onde passei a noite

No dia seguinte, usei o fogareiro novamente para esquentar água e fazer o café com leite solúvel, comecei a desmontar acampamento e arrumar minhas coisas, o Marco apareceu ficamos conversando um pouco, após tudo arrumado resolvi ir ver a praia passei ao lado do hotel e desci uma rua, a praia estava deserta e todo o comercio, pousadas e hotéis a beira mar fechados, vi a placa indicando o farol, pensei em ir até lá mas depois de ver que teria que subir uma estrada de terra me mas condições desisti, passei em um mercado próximo ao camping para comprar água, a dona falou que faziam lanches, resolvi reforçar o café da manhã ali antes de seguir viagem.

Meu destino ainda não estava definido, só sabia que deveria chegar em Araranguá-SC para pegar a BR-101 sentido sul, pouco antes de chegar na cidade uma van dos correios passou por mim no sentido contrário, percebi a que o carro fez a volta e passou por mim de novo, o motorista buzinou e acenou parando a van, seu nome é Sander, é cicloturista e faz parte da lista do grupo e-mail do clube de cicloturismo que eu também participo, por coincidência pouco antes da minha viagem trocamos e-mails através do grupo quando eu estava divulgando o início de minha viagem e procurando informações, após conversamos um pouco, segui viagem a travessia de Araranguá foi complicada, começou a ventar muito e o tempo começou a formar chuva, na saída de Araranguá outro motorista me abordou, seu nome era Evandro, ciclista e curioso quanto a minha viagem, ele me deu várias dicas do me percursos, por onde ir e onde não ir, contei a ele que estava em dúvida sobre o destino do dia, pois eu queria conhecer a região dos cânions mas estava com receio por causa das chuvas na região, ele me aconselhou a não tentar subir a serra com todo o peso de minha bagagem caso que quisesse ir até lá e se não fosse poderia seguir pelo litoral por Passo Torres, informações colhidas nos despedimos eu pedalei pouco mais de 100 metros e me abriguei em um posto de gasolina abandonado, pois nesse momento desabou o mundo em chuva, esperei ali cerca de 30 minutos antes de seguir viagem pela BR-101.

Sander
Sander

Chegando na saída para a cidade de Praia Grande que dá acesso a região do cânions e a cidade de Cambará do Sul (RS) no alto da serra, pedi informações sobre as condições da estrada em um posto de gasolina, o que confirmou o que todos vinham falando, por causa das chuvas a subida da serra estava intransitável, infelizmente tive que desistir de um ponto importante em meu roteiro, vai ter que ficar para outra vez, decidi ir até Passo Torres, última cidade de Santa Catarina que eu passaria em minha viagem, chegando lá comecei a procurar um lugar para passar a noite, me informaram onde tinha um camping, fui lá estava fechado, peguei informações de pousadas, a primeira fechada, a segunda também a terceira a terceira também, eu estava desistindo de Passo Torres e quase atravessando a ponte que liga a cidade de Torres já no Rio Grande do Sul, quando um carro com rack de bicicleta no teto e cheio de adesivos de eventos de ciclismo me abordou, o motorista que saiu do carro usando uma camisa de ciclismo me perguntou se eu estava procurando lugar para ficar, eu disse que sim mas estava tudo fechado, ele disse _ então meu amigo você acabou de achar.

Seu nome é Souza é ciclista com participação e títulos em várias provas, também tem uma loja de bicicletas na cidade, segui seu carro até a loja, logo que chegamos lá encontramos o Nia, um amigo do Souza e radialista, ao contar a minha viagem o Nia nos convidou para ir a Rádio Maristela contar um pouco da aventura, após o Souza fechar a loja, segui seu carro novamente a sua casa, lá conheci sua esposa que também me recebeu muito bem, o Souza explicou que todo cicloturista que passa pela cidade ele ajuda, tomei um banho, jantamos e fomos para a radio, chegando lá o Nia fez um intervalo para que a gente se acomodasse na sala e então voltou o programa ao vivo…rs… primeira vez que fiz uma entrevista em radio, pena não ter a gravação para ouvi como ficou….rs

Souza e Nia na rádio Maristela
Souza e Nia na rádio Maristela
Souza em frente a sua Loja
Souza em frente a sua Loja

De volta a casa do Souza, arrumei minhas coisas e fui dormir, já na manhã seguinte, fomos a redação do Jornal Norte Sul também contar um pouco da história, chegando lá a redatora fez algumas perguntas tiramos uma foto e logo foi publicado no site do jornal, clique aqui para ver.

O Souza e sua esposa estavam com viagem marcada para aquela tarde e me convidaram para almoçar com eles antes de partir, aproveitei o tempo para limpar a corrente da bicicleta, também assinei a parede da loja ao lado de outras assinaturas de cicloturista que ali passaram, olha que foi difícil achar um lugar sem assinatura.

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Após o almoço, agradeci pela ajuda, pois se o Souza e sua esposa eu estaria perdido, me despedi e segui para a ponte que atravessa para a cidade de Torres e também par a o estado do Rio Grande do Sul, após passar pela cidade, segui pela estrada e comecei a pegar um pouco de vento contra, após 25km + ou -, novamente o Souza e sua esposa que estavam de viagem e no mesmo caminho me alcançaram e me deram uma carona até Capão da Canoa, chegando lá fomos para a bicicletaria do Jesus, amigo do Souza, que pediu um auxílio para o Jesus me ajudar a encontrar uma hospedagem ali, na mesma hora o Jesus saiu de bicicleta procurando as pousadas próximas. Encontramos uma que estava aberta em com preço razoável, o Jesus que tinha acabado de me conhecer em um gesto de generosidade se ofereceu para pagar metade do valor da hospedagem, eu fiquei feliz com o gesto de generosidade, mas não pude aceitar.

Jesus (a esquerda)
Jesus (usando camisa preta)

Na pousada havia uma cozinha coletiva, que usei para preparar minha janta, já no dia seguinte, 17 de outubro, preparei meu café da manhã na cozinha da pousada e sai para mais um dia de viagem, antes de deixar a cidade passei na loja do Jesus para agradecer e me despedir, peguei a Estrada do Mar sentido sul e logo começou o vento contra, no caminho eu via os geradores eólicos o que aumentava meu desanimo em relação aos ventos da região, eu sou totalmente a favor a energia limpa, mas ficava pensando como seria bom se os geradores parassem de girar naquele instante, isso seria um alivio pra quem estava pedalando contra o vento, após muito sofrer em uma estrada esburacada, com vento contra e movimentada cheguei a Cidreira no Rio Grande do Sul, lá eu já tinha destino quase certo, antes de iniciar a viagem eu enviei um e-mail para a ASMC – Associação dos Servidores Municipais de Canoas, que possui um camping em Cidreira, o Sr. Firmo, presidente da associação, em informou por e-mail que o camping não era aberto para particulares, mas que poderia me receber se eu informasse o dia de minha chegada, por sorte eu cheguei em Cidreira no dia que informei no e-mail, confesso que procurei a associação com medo de não ser recebido, mas chegando lá fui muito bem recebido pelo Seu Braga e a Dona Rosangela que cuidam do local, não precisei montar minha barraca pois eles deixaram eu ficar em uma cabana do camping, logo no primeiro dia me convidaram para tomar uma sopa feita no fogão a lenha, após a sopa ficamos conversando e antes mesmo de sair da mesa, convidaram para tomar café da manhã com eles, fiquei tão à vontade que pedi para ficar um dia a mais pois precisava lavar minhas roupas, que após quase duas semanas de viagem já estava toda usada.

Chegando em Cridreira
Chegando em Cridreira

No dia seguinte, acordei e tomei café com o Seu Braga e a Dona Rosangela, depois conversai um pouco aproveitei o dia de sol para lavar toda a roupa, e só fiz uma pausa quando chegou a hora do almoço, fui convidado por eles para ir à casa de um vizinho onde seria feito um churrasco, onde fui apresentado não só como um viajante, mas como um amigo de longa data e foi assim que eu me senti, o churrasco estava bom e o pessoal era muito receptivo, de volta ao camping eu terminei de lavar minhas roupas e comecei a escrever os textos desse blog enquanto esperava a roupa secar. No início da noite fiz mais uma refeição na companhia dos meus anfitriões, um café com pães, frios, bolos e doces, comi tanto que não precisei jantar nesse dia. No dia seguinte, comecei a arrumar minha bagagem antes de tomar café da manhã, logo o Seu Braga veio me chamar para o café, aproveitei para comer dois pães, um deles recheado com ovo frito pois seria um dia longo de pedal, na despedida tiramos várias fotos o Seu Braga com a vestimenta tradicional de gaúcho, fiquei muito feliz de ter passado por lá e ter a sorte de conhece-los, como disse em minha despedida eu estava procurando apenas um cantinho pra montar minha barraca e dormir e acabei encontrando muito mais que isso.

Churrasco
Churrasco
Seu Braga e Dona Rosangela no dia em que nos despedimos
Seu Braga e Dona Rosangela no dia em que nos despedimos

Segui pela estrada pensando em chegar em Palmares do Sul, mas nesse dia o vento estava colaborando e não foi difícil chegar em Palmares do Sul, logo pensei em pedalar mais um pouco e chegar na Lagoa do Bacopari, então peguei outra estrada para meu destino e o vento que estava em minhas constas começou a soprar de lado e muito forte, as rajadas de vento batendo nos alforges fez a bike desequilibrar em vários momentos e em alguns momentos críticos que tive que descer e empurrar a bicicleta por alguns quilômetros para não cair, chegando na entrada da lagoa peguei outra estradinha para chegar a vila, enfrentei 4km de estrada com calçamento de pedras irregulares e vento contra, cheguei na vila e mais uma vez, tudo fechado por que está fora de temporada, fui até a lagoa o barulho do vento era ensurdecedor, por fim consegui encontrar um camping que mesmo fechado para reformas me recebeu, montei minha barraca em um lugar um pouco mais protegido do vento, e por segurança coloquei todos os espeques e também as cordinhas para deixar a barraca bem firme, preparei minha janta no fogareiro e fui dormir, acordei durante a noite por conta do vento que fazia barulho nas arvores e em um determinado momento começou a chover, foi a primeira chuva que peguei com essa barraca, resolvi acender a lanterna e ver se havia algum vazamento, bom não havia nenhum, voltei a dormir mais tranquilo sabendo que não iria me molhar dentro da barraca.

Lagoa do Bacopari
Lagoa do Bacopari

No dia seguinte, 20 de outubro, sai da Lagoa do Bacopari com uma forte ameaça de enfrentar um dia chuvoso, o céu estava todo coberto de nuvens escuras, antes mesmo de chegar no asfalto começou a chuva, coloquei a capa de chuva e continuei, ao chegar no asfalto, além da chuva peguei vento contra, pedalei alguns quilômetros e quando era +ou- 12:30 resolvi parar para almoçar, encontrei um restaurante na beira da estrada, o dono d restaurante falou que me viu no dia anterior quando pedi informação em um posto de gasolina, pedi um PF para almoçar, mas veio comida para duas pessoas, arroz, feijão, batata frita, bife, ovo e salada, acho que fiquei uma hora ali, nesse meio tempo a chuva parou e o vento mudou de lado, sai animado com o vento nas costas e uma estrada plana pela frente cheguei rápido em Mostardas, chegando na cidade via a placa de um camping, já sabia onde procurar, então resolvi ir até a entrada da cidade (alguns metros a frente) para tirar uma foto, nisso percebo que uma pessoa andando em minha direção perguntando se eu estava procurando um camping, disse que sim ele falou que a placa do camping ali era dele e a entrada do camping estava logo a frente, entrei no camping que estava vazio e o dono deixou eu me acomodar no barracão da cozinha do camping, montei apenas a parte interna da barraca por causa dos mosquitos, após tomar um banho atravessei a estrada e fui em um mercado, comprei água, pão de forma e uma lata de cerveja Germania 55 bem grande…rs…afinal de contas eu merecia, deixei a cerveja gelando enquanto eu fazia o backup de fotos, após preparar minha janta no fogão do camping me preparei para dormir.

Camping Poente
Camping Poente

Hoje, dia 21 de outubro, dia em que estou escrevendo esse post sem saber quando vou publicar, pois desde Capão da Canoa não encontro internet, sai de Mostardas com duas preocupações a primeira era em chegar em São Jose do Norte e conseguir atravessar para Rio Grande, devido as cheias as notícias é que a travessia estava parada, mas já tive notícias que estava normalizando, vamos ver amanhã quando chego nesse ponto de travessia, a outra preocupação é que eu não tinha certeza se encontraria hospedagem para essa noite, Tavares é muito perto de Mostardas e é a última cidade antes de São José do Norte então não valeria a pena uma parada lá, a estrada é um plano se fim com retas impossíveis de se ver o fim e hoje o vento estava contra, o que deixou o pedal de hoje muito penoso, além disso não há nada na estrada, posto, restaurante, nenhuma vila, apenas fazendas e quase tudo deserto, por fim após pedalar quase 80 km cheguei em um vilarejo chamado Bojuru onde consegui uma pousada bem barata ao lado da rodoviária, e com a porta do quarto na rua…rs

Antes de encerar esse post, eu gostaria de agradecer algumas pessoas que muito me ajudaram nesses dias, ao Marco em Morro dos Conventos (SC) que me disse para pedir ao dono do hotel deixar que eu ficasse aquela noite no camping, ao Souza e sua esposa em Passo Torres (SC) que me resgataram quando eu já não sabia mais para onde ir, ao Jesus em Capão da Canoa (RS) que deixou sua loja e saiu procurando um lugar onde eu pudesse passar a noite e claro ao Seu Braga e a Dona Rosangela em Cidreira (RS) que me receberam como se eu fosse da família.

Por hora é isso, vamos ver como será amanhã.

Abraço!!!